outubro 25, 2005

Fomos ao Futebol


Já há algumas semanas atrás, no decurso do nosso jantar das sextas-feiras, tínhamos combinado ir ao futebol.
Ir ao futebol mas em excursão da Tertúlia, em manada, não é ir agora um para cada lado, sem jeito nenhum.
Tal como fomos ao hókei em Outubro de 2003 e cuja crónica se recomenda.

Em primeiro lugar foi preciso escolher qual a equipa que iria merecer a honra da nossa presença. Depois, qual o jogo. Chegamos a um consenso rápido para contentar todos. Iamos ver o Sporting-Benfica.

Os lagartos como são poucos e maus, ficaram todos contentes. O jogo era em casa deles e iam ganhar certamente.

Bom, como de costume, escolhemos os carros mais económicos para a deslocação e marcada a hora da partida lá fomos. A viagem foi do género da que fizemos em Abril de 2004 quando fomos assistir ao Golf (outra crónica a não perder, Golf – um desporto de segundas tentativas). Partimos cedo para almoçar pelo caminho e lanchamos ainda antes de chegar a Lisboa. Depois do que se comeu e bebeu, fomos directos ao estádio da LUZ. Só um bom bocado depois de arrumar o carro, porque não havia movimento ali perto, nem os arrumadores do costume, lembramo-nos que o jogo afinal era em Alvalade. Lá voltamos para trás.

Bilhetinho na mão, comprado por um sócio do Sporting, fomos surpreendidos, logo à entrada, por uma cena entre pai e filho que sobressaíam dos “cascóis” do seu Sporting.
O filho, ainda imberbe, perguntava ansioso ao pai; -Pai vamos ganhar, não vamos? Ao que o pai com paciência respondia; -Sim, vamos! , repetida a pergunta à exaustão, logo o pai se exaltou e ofereceu pancada ao rapaz.
Pensei para comigo. Já são horas do moço aprender que não se insiste com o pai numa altura destas. Depois, sendo do Sporting, claro que estava mesmo a pedi-las. Até já aos circundantes apetecia “molhar a sopa”.

Após uns encontrões e outras tantas pisadelas, verificamos, já no lado de dentro que o nosso lugar ficaria ao cimo de umas escadas que era preciso vencer.

Entre protestos e reclamações, com juras de vingança ao lagarto que comprou os bilhetes, lá iniciamos a subida.
Mal sabíamos nós o que nos esperava.
Ao fim de não sei quantos lances de escadas , perguntava um; - óh pá, mas o jogo é no céu, ou quê? Outro, mais atrasado, resmungava só para ele, mas que todos ouviam; - Quem me manda a mim meter com os gajos do Sporting. Eu pago o bilhete mas é uma m…..!
E as reclamações choviam e aumentavam de tom.
Subidos mais 2 ou 3 lances, já um sócio se sentava nas escadas a descansar.
Outro, dizia; - Bem, quando a gente lá chegar, já o jogo acabou e são horas de começar a descer.

Entretanto, à medida que nos aproximávamos da chegada, iam-se ouvindo os cânticos e berros das clakes e demais aficionados.

Finalmente, uma plataforma de ar fresco. Tínhamos chegado!
Procuramos a porta respectiva e no meio de insultos e assobiadelas, lá encontramos os nossos lugares.
Quando começamos bem a olhar para o relvado, um após outro, trocamos olhares entre nós.
Quem usava óculos rapidamente os começou a limpar.
Mas afinal não era disso que se tratava. Simplesmente estávamos tão longe do campo de jogo que não só não éramos capazes de reconhecer os jogadores como nem quase destrinçávamos as cores das camisolas.

-Mas afinal o que é isto? Perguntava o nosso associado que maior esforço tinha feito pelas escadas acima a arrastar os seus muito mais que 100Kg de peso.
-Mas isto é que é um estádio? –E foi aqui que vieram jogar para o Euro? –Valha-me nossa senhora!
-Mas eu também não identifico os jogadores, dizia outro muito espantado. Minha rica televisãozinha, eu vou-me já embora!

No meio deste desencanto, entram as equipas e todos se põem de pé, agitando bandeiras e cascóis.
Olho para o lado e vejo o ar desconsolado de mais 3 amigos que abanavam a cabeça e relimpavam os óculos.

Começou o jogo e o “festival” de insultos não tardou 2 minutos.

Entre 22 jogadores, mais uma dúzia de suplentes, treinadores, médicos, massagistas, directores, e sei lá que mais, apenas um senhor de amarelo e calções pretos mereceu “os elogios” de todos os adeptos de ambos os clubes. O árbitro.

Nunca aquele santo homem conseguiu agradar a ninguém. Até metia dó.
Lá mais para diante sempre conseguiu repartir as atenções com um dos ajudantes que corriam de lado com uma bandeirinha na mão a fazer lembrar os antigos guardas das passagens de nível dos comboios.

Assisti até a um dos espectadores a pedir um isqueiro ao vizinho, o que estranhei porque não lhe via nenhum cigarro e, espanto meu, o sujeito agarrou no dito e arremessou-o directo à cabeça de um dos árbitros, aproveitando o momento em que estavam próximo um do outro a conferenciar.
Virou-se para o ex-dono do isqueiro ainda meio-parvo com o negócio e disparou –“isto é para os gajos aprenderem,” e acrescentou de seguida, “assim juntos temos mais hipótese de acertar num deles”.
O adepto que ficou sem o isqueiro, olhava para o maço de cigarros que entretanto tinha tirado do bolso e ia procurando com o olhar alguém que próximo estivesse a fumar para pedir lume.
Pensei para comigo, senão te despachas, o teu amigo ainda pede outro antes de ti e lá ficas sem fumar até final do jogo.

Chegou o intervalo e a rapaziada que estava fora de si aos berros e aos saltos, ficou de repente calma, davam palmadas nas costas uns dos outros, riam e comentavam “aquela” jogada que ia dando golo.

Propunham-se apostas que ninguém fazia, mas isso também é normal. É só para entreter conversa.

Quando dei por mim, a maior parte dos meus amigos tinha saído, uns para o bar outros à casa de banho e o jogo estava prestes a recomeçar.
Lá saí apressado para o xixi e pelo menos tive a vantagem de já não haver “bicha” e despachar-me rápido.

Mais 45 minutos de gritaria, cotoveladas do parceiro do lado que quando a sua equipa estava em apuros apertava-me a perna com ambas as mãos e quando estava ao ataque dava pontapés infernais nas costas da cadeira à sua frente numa tentativa de substituir o jogador e marcar ele o golo.

Bem, quando eles marcaram o golo, pensei que aquela bancada ia abaixo, tal eram os saltos, safanões e empurrões.
Resultou logo do primeiro golo uma vantagem, metade da turba, ficou meia rouca e deu logo para notar uma descida de decibéis nos insultos ao adversário e ao árbitro.
A outra metade não tardou a ficar na mesma pois não demorou muito tempo até que surgisse o golo do empate.
Aí, enquanto uns mandavam os cascóis ao ar os outros mandavam ao chão e pisavam-nos com indisfarçável raiva. Enquanto os primeiros davam saltos e abraços, os outros davam murros e pontapés nas cadeiras.
Afinal tudo gente civilizada e civicamente bem comportada.

E não tardou muito a troca de piropos entre adeptos das duas equipas.
Aí disse para os meus amigos, “…é melhor ir andando que isto já não dá mais nada de jeito e temos de ir jantar que se faz tarde.”
Todos perceberam e lá fomos saindo com muito receio que naquele meio tempo em que atravessávamos pela frente dos espectadores houvesse algum golo.
Era certo e sabido que íamos parar á fila da frente se o povo começasse aos saltos.
Este pensamento fez-me um arrepio porque me lembrei de há muitos anos atrás, ainda no velho estádio da luz, vi um adepto cair do segundo para o primeiro anel.
Ainda hoje guardo na memória o baque do corpo a cair. Era um jogo internacional e logo ao meu lado um comentário do género, “…é bem feito que não tinhas nada que te meter aí…”, nunca soube se caiu por acidente ou com “ajuda” de alguém chateado com o resultado.
Para o espectador “voador” isso não deve ter tido muita importância, embora fosse a diferença…

Com esta recordação, respirei de alivio quando começamos a saga da descida das escadas.
O que vale é que a descer todos os santos ajudam e o jantar chamava por nós.

Parece que ainda houve golo não sei de quem. Afinal que interessa o resultado, desde que ganhe a nossa equipa, tudo bem.

Isto do futebol é muito difícil…
Todos recordaram com satisfação a ida ao Golf. Aí sim, valeu a pena. Temos de repetir!

Viva o nosso clube!

Publicado por tertuliaalviela em outubro 25, 2005 01:36 AM
Comentários

Hummmmmmmmm...
Pois é, foram arrumar o carro à Luz e apagou-se tudo....
Nem de lá saíram e já pensavam que tavam a ver não sei o quê.
O pessoal, o melhor mesmo é só pensarem nos jantarinhos...
Larama

Afixado por: Larama em outubro 27, 2005 04:18 PM
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