julho 04, 2005

Um Susto ao Pai

Não sendo hábito aqui trazermos crónicas da vida familiar dos nossos sócios, abrimos uma excepção face ao episódio que um membro da Tertúlia nos trouxe e que, em boa verdade, podia ter acontecido á quase totalidade dos nossos sócios, já que a maioria tem filhos a estudar fora de casa.

Conta-nos o nosso amigo que um dia destes, antes de sair para uma reunião de trabalho, deu uma passagem pelo seu computador, como habitualmente faz, afim de verificar se lá tem algum correio com assuntos que possam ser urgentes ou necessitem de resposta imediata.
Curiosamente verificou que tinha uma daquelas tentativas de comunicação do MSN, já a altas horas da madrugada, proveniente da sua filha.
Ao ler as duas ou três linhas, sentou-se sem fôlego na cadeira do escritório, pois não queria acreditar no que os seus olhos liam.
Pensou que o mundo lhe estava a desabar em cima.
A mensagem (tentativa de comunicação) dizia apenas isto;
-Pai, estou metida em trabalhos, ontem fui beber umas cervejas com os amigos, fui apanhada pela policia com excesso de velocidade e por ter passado dois sinais vermelhos… acusava 1,2…
Vê o mail que te envio de seguida a contar tudo em pormenor.

Nem queria acreditar. Não era possível. A sua filha? Logo a sua filha?
Entre outras coisas, pensou logo em tirar-lhe o carro de imediato e não lhe deixar por as mãos em cima tão depressa. Vender o carro? Era uma hipótese.
Conduzir com álcool? E ele que confiava cegamente nas filhas, considerando-as simplesmente incapazes de uma coisa daquelas.
Estava a ver mal. Tinha que haver qualquer equívoco.
Mas estava ali tudo escrito.

Vamos ver o mail, embora nada que possa ser explicado justificará o injustificável e evitará o “terramoto” que vai haver… e vamos a ver se ficamos só pelas palavras…

Clikando de imediato para a caixa de correio, depara-se com este mail que aqui se reproduz na integra… (anulando os nomes como sempre fazemos neste blog).

Querido pai...

São 2.33 da manhã e a tua linda filha ainda está de olhos bem abertos...
Perguntarás tu o motivo de tal facto...
Na verdade, a tua mais que tudo, teve a trabalhar até agora, porque amanhã tem outra avaliação e não quer correr o risco de ter outra discussão com as professoras e muito menos de ouvir absurdos e injustiças.
Realmente o dia de hoje foi muito agitado... eu diria mesmo, foi muito exaltado e conturbado…
Tudo começou de manhã. O despertador tocou às 9 da manhã, não porque tivesse que me levantar, mas porque na noite anterior tinha-me deitado relativamente cedo (meia-noite) e achava que me fazia bem acordar cedo... mas qual não foi a minha admiração quando acordei e senti que não tinha dormido nada... como é óbvio, sem obrigações para me fazer despertar, deixei-me ficar, molengona e acomodada, na cama a dormir...
Quando tentei reabrir os olhos, mais uma vez, já passava das 11... num instante contei as horas de sono e achei estranho tanta sonolência... mas foi mais forte que eu, e mais uma vez deixei-me vencer pela vontade de ficar na cama... Já eram 12.20 quando lutei exaustivamente contra aquela inércia incompreensível e injustificável.
Com as pálpebras meio cerradas, lá arrastei o meu corpo entorpecido até á banheira, onde consegui despertar alguma actividade física e mental, através dum violento choque térmico...
Como era de esperar... mal saí da casa de banho, senti uma forte pancada na cabeça que não mais me largou até engolir dois comprimidos...
Comprimidos esses que necessitavam de aconchego no estômago... mas... a dispensa encontrava-se praticamente vazia, e o frigorifico albergava uns reles duns iogurtes, um pacote de manteiga inútil perante a ausência de pão ou qualquer seu semelhante, e uma fatia de queijo abandonada e deixada por misericórdia ao próximo.
E perguntas tu, deveras atónito: «como terá ela resolvido tal embaraço?»
Pois é meu querido pai... a única solução foi visitar os teus preciosos cereais...
Preciosos... não me arriscaria a lhes chamar! Não é que a caminho da faculdade, tive uma dor de barriga que ía dando cabo dos estofos de pele?!
Não sei como consegui aguentar firme a tais ferroadas, que era o que pareciam aquelas malditas cólicas... mas a verdade é que aguentei, cheguei seca á faculdade, estacionei depois de mil voltas e acabei sentada na asseadíssima retrete de uma das sensacionais casas de banho da minha moderna faculdade... tão moderna como os autoclismos... (pois claro... achas que ía funcionar, não???, não meu caro.. Ficou lá tudo como testemunho da minha dolorosa viagem... tudo deixado, como a fatia de queijo, por misericórdia ao próximo! e que deus tenha pena dele, porque de mim não teve!).
Com isto tudo, batiam as 14.30 no relógio... Foi quando consegui entrar na sala e preparar-me para a matança!
Logo cedo consegui perceber que as coisas ali não íam menos agitadas do que os meus intestinos, e rapidamente constatei que tudo acabaria de igual forma... em merda!
Passadas 3 horas de espera impaciente, lá foi chamado o meu belo nome...
Desgraça total... injustiças, injurias, incoerências, irritantes insultos, e tudo começado em i e ainda calunias, falsidades etc... tudo foram dito e em nada fui poupada....
Tava ali para ser espezinhada... sentia-me um porco no matadouro, ou uma galinha no aviário... confesso que no momento pensei seriamente em me tornar vegetariana, mais uma vez, por misericórdia ao próximo.
Saí da sala de rastos e dirigi-me ao meu magnifico carro...
Sã e salva no seu interior, peguei sem hesitar no telemóvel e liguei à minha amiga V.... «Queres ir beber umas bejecas??»
E aí fomos nós... tens de convir que era mesmo a única solução para um dia tão terrível!
Mas o dia não ficava por aí... e de regresso a casa, sou mandada parar pela policia que constata que a viatura circulava a 120 Km/h dentro da cidade, que passou dois vermelhos e por isso teria de cumprir com a lei e fazer-me soprar no balão...
Nunca pensei que as cervejas pudessem acusar.. mas foi isso que aconteceu...
E logo de imediato foi-me aplicada uma multa de 460 euros e avisado que desculpavam desta vez, mas que outra do género, e ser-me-ia apreendida a carta de condução.

Querido Pai...
A tua linda filha não deve ter mais nada para fazer do que isto que acabei de fazer... escrever-te um mail metade real metade ficção...
Queria testar a minha capacidade de persuasão... consegui?!
Talvez não.. mas eu tinha de arranjar motivos para justificar tal facto repreensível... mas acho que nenhum motivo seria plausível e credível não é?!

Querido Pai...
Espero sinceramente que estejas fulo perante o computador e que tenhas pensado já em mil formas de me castigar... porque isso significará que sou de facto muito boa! E que talvez ganhe a vida a escrever!
Não te preocupes... a minha multa são apenas 2 euros de «ausência de ticket, quantia correspondente ao número de horas máximo do parquímetro»

Agora, respira fundo e acalma-te... porque:
1º) Eu não bebo, e se beber não conduzo... ok, retiro a primeira parte, refaço: se beber não conduzo e vice-versa, podes confiar;
2º) Não ando a 120 em Lisboa, a não ser que levasse os outros á frente... dou os 90 na melhor das hipóteses quando não vai mais ninguém...
3º) Posso rebentar com os travões, mas nunca passarei um vermelho...

Agora vai andar porque hoje vi o J. F. e a M. J. e fartaram-se de recomendar que andasses... mandaram-te os comprimentos e disseram que te iam ligar...
Agora que são 3:28, acho que vou até á cama... amanha ás 9 da manha lá estarei para mais uma matança!

Ah! Caso não tenha ficado bem esclarecido, a história é toda verdade até ao momento em que chego ao carro, que não ligo a V… nenhuma, (que até tá a trabalhar das 15 á meia-noite), nem vou beber bejecas nenhumas, deparo-me mesmo com um papel de multa e sigo feliz da vida para casa por não ter sido nenhuma multa a sério...
Beijinhos, boa noite!
p.s: agora liga-me e elogia-me!

Bom, afinal era tudo uma partida mas que a marota tinha pregado um valente susto, não havia dúvida.
Coisa de estudantes, claro. No nosso tempo faríamos pior…
Só que a coisa não ficou por aqui…
O nosso assustado e recuperado pai, pensou logo na vingança… e ela só podia ser “virando o feitiço contra o feiticeiro”, queres sustos, então vamos aos sustos.

A caminho da reunião, já refeito dos suores que teve naquele embate inicial, telefonou á sua estimada filha a perguntar se estava tudo bem e se estava preparada para a avaliação que ia fazer.
A pergunta saltou de imediato;
-Pai viste o mail que te mandei?
-Oh filha a esta hora achas que tive tempo de ir ao computador? Ao almoço vou. Mas porque perguntas?
-Por nada…
-Ok, depois vejo, sorte para o teu trabalho, bj…taratarat, o costume.

Durante a reunião, um toque no telefone, indica que a avaliação teria terminado, mas ao mesmo tempo alguma ansiedade sobre se o pai já teria chegado a casa.
Não houve resposta deste e só no regresso a casa, telefonou novamente a perguntar se tinha corrido bem?
-Sim pai correu, mas já viste o mail?
-Bolas, mas que se passa? Qual a pressa? – Não, vai ver… enigma…

Durante o dia não houve nenhuma outra comunicação. Porém, ao fim da tarde, contactada a filha mais velha para ver se sabia da partida da irmã, constatou-se que estava “fora”. Posta ao corrente, disse-lhe que ia devolver a partida e explicado como.

Á noite, já com as duas em casa, o pai “assustado”, liga para a filha “atrevida” e começa logo a “descompô-la” em grande gritaria…
-Pai, mas tu não leste o mail que enviei?
– Não recebi mail nenhum. Estou farto de procurar e não tenho mail nenhum, só uma mensagem a dizer que foste apanhada com álcool…

Bom, já com a irmã á beira de um ataque de choro, a mais velha começou a rir, o pai desmanchou-se também do outro lado e a “condutora” percebeu que tinha sido apanhada na sua própria partida…
Todos se riram muito… mas, e se tivesse sido verdade?

É melhor nem pensar nisso e continuar a ter confiança.
Afinal, ser pai também implica isso…

Mas que foi um valente susto, lá isso foi…

Publicado por tertuliaalviela em 02:21 AM | Comentários (0)