Já antes fizemos aqui um relato sobre uma comemoração do dia de S. Martinho, onde até aconteceram coisas muito giras (e não foram todas mencionadas) onde se passou uma noite muito agradável.
Agora é a vez do S. João. E fica já uma nota para os outros santos que escusam de ficar ciumentos, pois logo chegará a vez deles.
No nosso concelho, temos uma freguesia denominada noutros tempos de Casais Galegos, hoje chamada de Vila Moreira, onde é tradição de muitos anos, as festas do S. João.
E mesmo a brincar não faz mal nenhum deixar uma breve nota sobre as origens destas festas, esperando que os moreirenses não se zanguem muito connosco.
O padroeiro da sede do concelho é o S. Pedro (este é um dos que só falaremos em último lugar porque o sujeito tem estado de costas viradas para nós e isso não perdoamos…), cujos festejos tinham a capacidade de atrair á vila muitos homens (porventura também mulheres) de lugares e freguesias vizinhas. Acresce que as localidades de Vila Moreira e a sede do concelho são praticamente pegadas e ainda hoje muitos fazem a deslocação a pé. Claro que na época ia-se a pé para todo o lado, já que eram raros os que dispunham de bicicletas e outros veículos que pudessem dar “boleias” não abundavam.
Nunca ninguém me conseguiu explicar muito bem as possíveis razões que levavam ao normal encerramento das festas com cenas de pancadaria, onde, talvez por “jogarem fora de casa”, os moreirenses levavam “o fato escovado”.
Certamente que a isto também se juntariam outras justificações, já que têm a fama (quiçá o proveito também) de serem conquistadores. A ser assim, encontramos motivos duplos, isto é, para os homens da sede do concelho terem aquela “sede” aos de Vila Moreira e as mulheres de Vila Moreira quererem que os seus homens não fossem para as festas do S. Pedro.
O facto é que as “carvalhadas” de pancadaria eram tão assanhadas que num certo ano, na sequência da intervenção da GNR para “acabar” com a guerra, acabaram por matar uma mulher de Vila Moreira com um tiro perdido (antes do 25 de Abril, havia muitos tiros perdidos…).
Teria sido esta a causa próxima para que as mulheres de VM metessem mãos à obra e no ano seguinte tomaram a iniciativa de organizarem as festas do S. João. Como estas eram mais cedo, os homens gastavam as “energias” todas, já sendo raros os que conseguiam ter dinheiro para ir ao S Pedro.
Será esta a história sucinta das festas do S. João em VM, mas o que é facto é que elas ainda hoje apresentam características peculiares.
Em primeiro lugar, eram as únicas festas populares da região, onde se juntavam a trabalhar, colaborar e participar, de forma enérgica, operários e patrões (hoje isso está esbatido por várias razões…), depois, no ultimo dia das festas, realiza-se um cortejo do local das festas com destino ao cemitério para homenagear os mortos, mas que tem como motivo anterior a memória da mulher assassinada. Os festeiros participantes neste cortejo empunham bandeiras de Portugal, segundo um desenho antigo e um pouco adulterado, mas enfiadas em hastes metálicas que terminam em lança. Chegados ao cemitério, ao meio-dia em ponto, no meio de um silêncio sepulcral mantido por todos os presentes, são lançados 12 foguetes “tipo morteiro”, cujo estrondo se ouve na sede do concelho, tal é a potência dos petardos.
Afiançam os antigos que tudo isto tem uma leitura dos acontecimentos idos.
Ora, qualquer bom moreirense, mesmo que já não esteja lá a viver ou a trabalhar, procura sempre convidar os amigos para irem jantar ás festas do S. João. Os empresários têm mesmo o hábito de, num dia combinado dos festejos, levarem lá a almoçar ou jantar todos os seus trabalhadores.
E daí, vai um dos nossos sócios, moreirense de gema, não quebra esta tradição e lá convida o pessoal.
Como os tempos são de crise, aproveitou logo o dia em que o prato tradicional é a sardinha assada. Pois, não tem nada a ver com o preço. É só por ser tradição. Não, não foi por isso que escolheu aquele dia, foi por acaso. Pronto, mas quem não quis ir não foi. O meu caso por exemplo. Está bem que tinha outras desculpas, em convalescença de uma intervenção cirúrgica, etc., mas comer sardinhas assadas à noite, confesso que nunca foi o meu forte (nem fraco…).
Bem, mas sempre há uns tantos que não sabiam o que era a ementa e, gulosos, pensavam que era do habitual leitãozinho que se tratava… bem feito.
Pior ainda, não era decorrido metade do jantar e já não havia sardinhas para assar.
Segundo os relatos, tristes, dos muitos que lá foram, houve até quem atribuísse a responsabilidade desse facto à presença numa mesa a um canto, como se quisessem esconder-se, dos senhores da câmara. Dizia-se que como os vereadores na câmara são tantos, comeram tudo (eles comem tudo, eles comem tudo… ah g’anda Zeca Afonso).
Normalmente estas coisas acabam mais ou menos bem. Porém, parece que desta vez não foi o caso. A verdade é que na sexta-feira, ainda havia quem estivesse com as espinhas das sardinhas que não comeram, atravessadas na garganta.
O “Chefe” da Tertúlia, p.e., teve de ir jantar a Santarém a hora tardia, mas é de grande alimento, ou não fizesse jus à sua condição de “chefe”…
Outros rumaram a outras paragens. Bom, mas ficou a intenção e já agora, não deixou de ser bem feito para os que foram à procura de outro petisco…
Apesar disto tudo, não se deixou de efectuar uma deslocação a casa de um dos sócios (por acaso a minha), onde se afogaram algumas mágoas, mais em Coca-Cola do que em whisky. Só na sexta percebi ao certo porque os meus bolinhos desapareceram todos no meio das partidas de King que eles me deixaram ganhar… pensava eu que tinha ganho, até ver a caixa dos bolos depois deles saírem.
Em resumo, eu que até nem quis ir ás sardinhas, acabei castigado no stock dos bolinhos que uma amiga me tinha oferecido… esperemos ao menos que venham mais do sítio onde aqueles vieram.
E como um mal nunca vem só, na sexta, ao jantar, o resto dos faisões e das perdizes foram cozinhados apenas com couves… e para quem não é apoiante dos “maravilhosos” legumes… paciência.
Para a próxima sexta será melhor, até lá...