Depois de narrar, eu disse narrar, com “N”, as tropelias e diversões que passamos com a nossa chegada ao Brasil, precisamente a Fortaleza, cumpre-nos agora dar noticias de como se passou a nossa transição de ano de 04 para 2005.
Hoje ninguém tem dúvidas que após uma recepção daquelas, o último dia do ano tinha de ser apropriado. E foi.
Compreenderão os nossos leitores que não podemos relatar aqui no blog da Tertúlia o quotidiano dos nossos dias naquelas terras de Santa Cruz. Não pela falta de assunto mas sobretudo porque isso obrigaria os leitores a tirarem férias para ler tudo. Ficaremos por um pequeno resumo e mais em pormenor o último dia do ano.
Os dias, poucos para quem está a gozar a praia, não tanto para quem esteve a trabalhar, passaram rápido e sempre com a mesma rotina.
Levantar cedo, pequeno-almoço bufet no hotel com fruta e sumos até cair de cu, pedir as toalhas na recepção, pedir os carros, arrumarmo-nos e partir com destino á praia. Obviamente que sobre os momentos de trabalho, pelo desprezo que nos merece, nem falamos nisso.
Chegados á praia, procurar um local mais próximo do mar e com mais espaço, abancar e, os mais novos a correrem para o mar, fazerem um passeio de carro ou algo trabalhoso do género enquanto os mais maduros após escolherem o melhor lugar á mesa, começavam por pedir umas cervejinhas para combater os 30 e tal graus de calor.
Cabe aqui uma breve descrição destes espaços, para quem não conhece. As praias naquela região são preenchidas por restaurantes em pleno areal, denominados de “barracas”, sempre com nomes mais ou menos populares e fáceis de identificar. Este espaço não é ocupado com lugares sentados mas apenas servem de apoio e cozinha para confeccionar a comida servida nas inúmeras mesas, á sombra de chapéus de sol, normalmente coqueiros artificiais ou simples colmos, situadas no areal, até onde chegam as ondas em maré cheia. Quem quiser pode deslocar a sua mesa de forma a ficarem com os pés dentro de água ou pedir aos “garçons” que o façam. Tal como no anuncio das Caraíbas.
Por nós, preferimos a barraca da D. Diva na Prainha, em Beach Park não há alternativa e a barraca da Atlântida na praia do Futuro. No Kumbuco, a praia foi substituída pelo agradável convite de um amigo nosso e da Tertúlia, que lá tem casa e estava com a família. Assim uma espécie de barraca melhorada…
Vale referir que, depois das tropelias com os táxis á chegada, optamos por dispor de carros alugados para resolver as nossas deslocações. Carros, como quem diz, o já nosso conhecido jipinho, que foi “confiscado” pela malta nova e depois uma outra viatura, tipo produto branco, sem marca, que chocalhava por tudo quanto era sitio de tal forma que conversar no seu interior era impossível. Só por gestos ou aos berros.
Como o AC ainda não existia na época em que a dita teria sido construída, optamos por circular com a porta de trás aberta, daquelas que sobem para cima. Mais tarde os gases do escape impediram essa “ventilação”.
Apesar de alguns pequenos azares do tipo ficar com a alavanca das mudanças na mão, quando se pretendia “meter” a segunda, a coisa funcionava em perfeitas condições.
Tinha uma grande vantagem; Não corríamos o perigo de ser assaltados. Quando nos aproximávamos de outros carros, estes afastavam-se de imediato. Ainda estou para saber se era receio de que o nosso se desconjuntasse todo e danificasse os deles ou apenas por pensarem que éramos um qualquer gang da zona. Até os mal encarados nos evitavam… já sabem, regra 1 de segurança, parecer pior que os piores…
Quando na praia, era porreiro estar sentado a uma mesa debaixo de um coqueiro (mesmo artificial) e sentir o agradável perfume dos escapes das moto4, buggys, jipes e afins que aceleram no espaço entre o mar e as "barracas".
Lembram-se da barraca Vela Latina, na praia do Futuro, onde marcharam aqueles 4 portugueses que "foram buscar lã e foram tosquiados" ? É isso.
E o pior é que nos divertimos mesmo. Acabamos também por andar vários kms na praia de Kumbuco, aqui com um Buggy a acompanhar o jipe, acelerar a fundo, pisar as ondas e fazer saltar o resto da água da onda. Parecemos todos putos pequenos e felizes pela malandrice feita ao outro…
O nosso agradecimento ao nosso amigo, esposa e demais familia que tão bem nos receberam, felicitando-o pela sua maravilhosa “barraca”. Arquitetura rara pela beleza e funcionalidade, onde os materiais utilizados, madeira e vidro, nos fazem inveja pela qualidade do clima. De facto, só em filmes. Parabéns.
Passados estes dias num instante, chega o dia 31.
É certo que por razões conhecidas, não se pretendia qualquer jantar muito animado e por isso, com a ajuda especializada do amigo brasileiro, marcamos mesa num arraial do clube náutico, junto á enseada, sobre a praia.
Sabido que no local não havia jantar, implicava ter de ir para lá, já comidos. Como isso não fazia muito sentido, o nosso amigo perguntou pelo telefone, tendo-lhe sido garantido que havia serviço á lista. Ok! Serve.
Uma “ceia”, um manjar de Reis, foi tal e qual, na exacta medida do ano que vivemos.
Sentados nos nossos lugares, pedimos aos “garçons” a lista. Parecia que tínhamos dito uma barbaridade a julgar pelos olhares trocados entre eles.
-“Não seôr, nã á lista nã seôr.”
-Espere lá nós telefonamos e disseram que havia serviço de jantar.
-“Nâ seôr, pode falar com quem quiser… a nós ninguém falou isso, né?”
E agora? Quase 10 da noite, onde ir? O que fazer?
-Óh amigo, mas afinal o que tem para comer?
-“Doutô, temo aí uma tapa, um tira gosto, pratinho pequeno, né?”
-Óh pá traga tudo o que tiver e rápido. Olha a cerveja que não demore.
Chegada a cerveja, em lata, deixaram em cima da mesa uns canudos de copos de plásticos, pequenos, daqueles do café. Era por aqui que seria suposto beber a cerveja.
Interrogados os empregados, nada. Não havia copos. Não me conformei e perguntei;
-Òh moço, vais servir o whisky no plástico?
-“Nâ seôr, aí tem copinho de vidro, né?”
-Muito bem, então traz já uma garrafa de whisky e 11 copos. Solução perfeita.
Chegados os primeiros pratinhos de aperitivos, variados, mas todos com pouco, estes vinham com uns palitos para podermos comer sem ser á mão.
Com a promessa de uma boa gorjeta, lá trouxe um garfo de sobremesa para cada um dos “convivas” e assim eliminámos os palitos com que nos servíamos até então.
É o Brasil no seu melhor.
Todos foram unânimes, faltava ali uma pessoa, se Ela lá estivesse, seguramente todos nos levantariamos e iríamos em busca de uma refeição que, por mais normal que fosse, não seria tão degradante.
Assim, ali ficámos meio parvos a rir e a lamentar, para não “incomodar” o amigo brasileiro que teria sido enganado acerca do serviço de jantar, obviamente, extra entrada.
No enorme espaço, calculem, havia uma banda e uma brasileira a cantar, para variar.
Até parece que eles sabem fazer outra coisa.
Ritmo alegre como convinha, perninha sexi ao léu, bunda bem mexida em gestos ultra sensuais, letras variadas que não sabemos se já é outra ou a continuação da mesma, enfim, até conseguiram comemorar o final de ano 5 minutos antes da hora.
Francamente.
Uma virtude apenas naquilo tudo. Permitiu que eu e as filhotas abandonássemos o local mais cedo a caminho do hotel.
Aí, mesmo com as janelas fechadas, o som da festa popular na praia, frente ao hotel, onde os naturais se acomodaram com as mesas, cadeiras e comida que levaram de casa, faziam a sua festa de fim de ano, teimaram em não nos deixar dormir.
E o sono era tão pouco.
Pelo menos esses eram verdadeiros e felizes na sua simplicidade e naturalidade de brasileiros.
O Povão.
Na manhã seguinte, uma estranha imagem da praia, perfeitamente coberta de lixo, onde as garrafas vazias eram maioria entre plásticos papéis e outros resíduos. Havia mesmo desenhos feitos com garrafas vazias enterradas na areia.
O estômago reclamava com urgência pela reparação da falta da noite anterior, o que nos obrigou a caminhar aceleradamente para o bufet. Vingança.
Depois um último dia de praia, mais perto porque o avião de regresso exigia a nossa presença ao fim da tarde.
Era dia 1 de Janeiro de 2005.
Mais sete horinhas de voo e, casa, lar, doce e vazio lar.
Para o ano veremos. Mas também, com a chegada que tivemos, que queriam? Caviar? Champanhe?
Cerveja, copo de plástico, palitos, tapas, e de fartura, apenas fome.
Viva o Brasil !
Não se torna fácil escrever sobre isto por razões que poucos sabem, mas temos de ir em frente.
Este ano, a movimentação tradicional deste evento deslocalizou-se para os países de expressão quase portuguesa.
Sim, esta coisa da deslocalização está muito na moda e se queremos acompanhar a modernice temos de estar atentos.
Foi isso mesmo que resolvemos.
Bom, restava escolher qual o país onde a mão-de-obra fosse mais barata e por razões acrescidas pudéssemos passar despercebidos.
Exactamente onde os nosso leitores estão a pensar. Brasil.
Porquê o Brasil ? Sim podíamos ter ido com o nosso ministro até S. Tomé e fazer por lá uns mergulhos, só que ele estava com o avião cheio de outros amigos e depois, mergulho não era a nossa especialidade, pelo menos em água, logo optámos pelo nordeste transmontano, perdão, brasileiro.
Um sócio comprou os bilhetes, por sinal, também caríssimos, mas devemos ter sido considerados os clientes do ano. Se não da companhia de aviação, pelo menos da agência que os vendeu.
Dia de Natal, papelinhos na mão, malas com peso excessivo, lá rumamos ao terminal dos aviões e num instante, céus fora. Matámos o tempo com uma cartada, como se preza o bom português que de tudo faz a sua casa, sem sapatos, peúguinha ao léu, cheirinho mais ou menos, falar alto, os vizinhos estavam a querer dormir mas era só porque não se sentiam á vontade como nós.
Só faltou a hospedeira sentar-se connosco e jogar “ao apanha”, mas também foi só porque não quis.
Vem a propósito referir aqui que o organizador da viagem, assegurou o alojamento, segundo ele, nuns “flats” em edifício cujo nome se apropriava muito bem ás terras de santa cruz, há dois ou três dias que não conseguia contactar a sua amiga que era responsável pelos apartamentos.
Mas como para ele, tudo se resolve, vamos embora que depois tudo bate certo.
Pois foi, desta vez a coisa deu buraco.
Desembarcados no aeroporto, o nosso sócio não poupou o telemóvel, já um aparelho local como convém a quem habitualmente frequenta aquelas paragens, mas de resposta nada!
Quando já toda a gente tinha abandonado o local, resolve ele que o melhor era ir directo ao local dos apartamentos, desculpem, “flats”.
Chamados os táxis, todos os disponíveis, face ao número de passageiros e de malas, com pouco dinheiro “real” para pagar a corrida, foi engraçadíssimo ver os esforços dos taxistas a quererem enfiar algumas das malas, daquelas que gostamos de nos fazer acompanhar, tipo baús, num espaço reduzido pelas botijas do gás de combustível utilizado.
Resultou desta corrida, uns encavalitados no colo dos outros, com mais um malote de toilete entre os joelhos, cara alegre, pois tudo parecia, ainda, uma brincadeira.
Mesmo engraçado. Só que eu nesta altura já começada a desconfiar se a coisa ía ser engraçada até ao fim. Parecia que estava a adivinhar.
Chegados ao local designado por “Jangada do Porto”, descarregados os táxis, ficou todo o logradouro do edifício completamente cheio de gente e bagagem. Parecia que tinha chegado o circo á cidade.
O melhor mesmo foi a possibilidade de esticar as pernas, respirar aquele ar quente e húmido que nos deixa com o corpo todo suado e pegajoso e apreciar o ar espantado dos seguranças do edifício que julgavam que aquilo era um assalto.
O recepcionista, não conhecia a nossa amiga e de apartamentos, nada.
O telefone da dita, nada.
E nesta altura, táxis, já nada!
Após mais de meia hora, lá se conseguiu contactar um outro amigo que ao ser confrontado com o problema nos assegurou um hotel, modesto é certo, mas que iria evitar dormir na praia logo naquele primeiro encontro com o admirável país.
Aqui, o problema começava a ser mais delicado pois os parcos reais que existiam á chegada já descansavam nos bolsos dos primeiros transportadores.
O recepcionista, olhando para os irmãos portugueses, deve ter tido pena dos ingénuos e chamou pra nós mais uma caravana de táxis. Para não agravar as coisas á chegada, procurámos ainda mais apertar-nos para poupar mais uma viatura.
Neste percurso, já chegavam as malas a outros recantos do nosso corpo que não apenas os joelhos. Houve mesmo um dos veraneantes que ficou com uma dor nas costas durante todo o tempo que por lá esteve.
Chegados ao hotel, quer dizer, pensão melhorada, fomos salvos por um outro amigo brasileiro que ainda hoje estou para saber porque razão suava mais que nós sendo ele natural daquelas paragens. Pagou os táxis, cujos motoristas se riam muito, mas nunca souberam o quanto estiveram perto de chorar por não haver dinheiro para lhes pagar.
Descarregamos as malas, sacos e demais bagagem, e após um “chek in” atribulado, onde o recepcionista tantos números queria que dei o da segurança social, dizendo que era do passaporte internacional e para ele foi suficiente. Queria números, dei-lhe números.
Subimos aos quartos e espanto nosso, deparamos com umas agradáveis camaratas, mesmo tipo tropa, onde num amplo espaço se perfilavam camas em número interminável até á janela ao fundo, junto a um ruidoso aparelho de ar condicionado que se esforçava para refrescar um pouco aquele ambiente quente e húmido.
Por mim, fiquei logo no primeiro e fui direito ao duche para me refrescar do suor e já do cansaço que começava a causar estragos, após 7 horas de voo, e de duas corridas de táxi, apertadíssimos.
Fresquinho do duche, descemos para a recepção, onde o nosso amigo brasileiro nos esperava para nos entregar as chaves de um carro, sim digo bem 1 carro, um jipinho dos pequeninos mas com AC, os respectivos vidros escuros como é hábito por ali e ainda o resto dos seus reais.
Chamamos mais uns táxis e agora sim, sem malas, lá fomos em demanda de um restaurante para comer, adivinhe-se o quê. Uma picanha, exactamente. Uma picanha. A nossa primeira picanha.
Comemos a carne dura e meio fria com muita cerveja á mistura e lá fomos andando para o hotel.
Leu bem, andando. Como não era muito longe, combinamos que se fariam transportes sucessivos com a viatura ao nosso dispor e evitavam-se os táxis.
Primeiro as crianças, depois as mulheres e depois os homens.
Obviamente que estes últimos chegaram ao hotel a pé, cansados mas felizes por terem conseguido descobrir o caminho. Deu para entender o que sentiu Vasco da Gama há 500 anos.
Prontinhos para ir descansar, eis que chega um telefonema da prima do namorado da amiga do nosso sócio e que tinha ficado encarregue dos tais “flats”. Aqui comecei a desconfiar do que se iria passar a seguir, pois nem o meu amigo falava baixo, nem a conversa era longe de mim.
Tal como receava, estava já tudo tratado e “sem dúvida” era preferível regressar á Jangada no Porto, pois evitaríamos com isso desfazer e refazer malas no dia seguinte.
Sem dúvida para alguns, não para mim, cansado, e já a pensar porque tantos portugueses quando regressam de umas férias no Brasil chegam pretos e escanzelados.
Pois bem, vamos lá então convencer o recepcionista que afinal já não ficamos aqui.
-“Tudo certo sor, o doutor paga e vai embora, doutor, mas tem de pagar, né?”
Qual quê, vá-se lá explicar que tinha de pelo menos fazer um desconto porque nem as camas chegamos a fazer. Sim, porque embora antes não o dissesse, as camas estavam por fazer com os lençóis em cima das respectivas. Ao menos assim tínhamos a certeza de que era roupa lavada.
-“Tudo ceto doutou, mas tem de pagar, né…”
-Óh homem pague-se lá e desampare-me a loja que eu quero é ir descansar que estou morto.
Subir aos “quartos”, arrumar as malas que já estavam abertas, não esquecer as coisas do banho que tinha utilizado e escada abaixo, direito á recepção.
Ao menos chame-nos um táxi, homem de Deus.; - “já tá doutou”…
Afinal, nesta altura a experiência era já grande no que concerne ao carregamento e descarregamento da bagagem. Pensei até para comigo que os empregados dos aeroportos que lidavam com as bagagens não tinham uma vida nada fácil e compreendia melhor porque razão eles em vez de manusearem cuidadosamente as nossas malas, as atiravam e as deixavam cair com estrondo no chão sem qualquer espécie de cuidado…
Nova cena de explicar aos taxistas que não podiam empurrar assim a mala maior e que era melhor separar o trigo do joio, isto é, as malas vão num só táxi e as pessoas vão nos noutros. Claro que por uma questão de cautela no banco da frente do táxi das malas vai um homem para evitar que ele se “perca”. Porque não me lembrei disto mais cedo, aí há uma ou duas viagens de táxi atrás? Tudo tinha sido mais fácil e com menos dores nas costas. Pronto mas tudo indicava que iria ser a nossa última “passeata” nocturna.
Eu, nesta altura, já começava a identificar perfeitamente as zonas da cidade. Aliás, penso mesmo que daqui a muitos anos quando regressar lá, vou saber perfeitamente o caminho para o Porto Jangada.
Novamente no átrio do edifício, o nosso amigo entrou triunfante na recepção, onde o recepcionista, mal o viu, fez um cumprimento como se tivessem andado os dois na escola primária.
“-Patrão, tão novamente por cá emh? Cê gostou né? Pois, isto aqui é bom. Olhe a doutoua telefonou pa mim e tá tudinho solvido tá?”
-É pá eu não lhe disse que tínhamos cá os “flats”? eu sabia, aqui o portuga nunca se engana. Quando eu digo uma coisa cê sabe né?
Aqui já o nosso amigo falava meio brasileiro, meio português, mas também já ninguém dava por nada. Queríamos era ir dormir.
Recebidas as chaves lá subimos aos respectivos pisos, donde aliás se vislumbrava uma vista magnifica áquela hora da manha, já madrugada dentro. A calma da baía de Forteleza aos nossos pés, as luzes coloridas, enfim, o paraíso. Nem barulho se ouvia para além do murmurar das águas quentes na praia próxima. A lua, lá no alto punha um ponto final naquela boa sensação de nostalgia entre o cansaço que sentíamos e que agora nos fazia pensar que afinal tinha valido a pena tanta tropelia.
Mal sabia eu…
Ok, vamos lá desfazer as malas e arrumar as coisas. Nesta altura, comecei a observar que o “flat” não estava tão limpo como era minimamente de esperar.
Após esta desconfiança, passamos de imediato a uma operação mais pormenorizada de inspecção das coisas. Porca miséria. Mas que sorte. Encontramos o que não devíamos e então no sofá da sala que ia ser ocupado como cama durante a noite, era só impensável alguém lá se deitar, no estado em que se encontrava.
Mas que mal fiz eu a Deus para me acontecer mais esta? Eu, que até nem sou crente, já clamava pelo divino.
Reunida toda a tribo no hall de um dos apartamentos e depois de confirmada a situação, houve que tomar decisões drásticas.
Houve quem votasse, vamos para o aeroporto e apanhamos o primeiro avião para casa, porque isto não augura nada de bom. Coro de protestos de imediato.
Então viemos até aqui e agora desistíamos? Nem pensar. Ainda temos 8 dias para encontrar um local aceitável para dormir, dizia outro. Claro, tal e qual, fiz 6.000Km para passar oito dias á procura de alojamento. Perfeito. Férias porreiras. Se o resto for igual, vai ser bom.
Mas entretanto era necessário resolver o problema.
Primeira sugestão; Afinal temos os quartos pagos no hotel anterior, que ninguém já sabia o nome. Diz outro; “oh pá, eles não darão um prémio aos turistas com mais viagens de táxi em tão pouco tempo? Se fosse sempre a mesma companhia já tínhamos desconto”.
Nisto, convenci o meu amigo a fazer uma deslocação ao hotel que ele usualmente utiliza para tentar resolver o problema, pelo menos naquela noite e depois víamos com calma a melhor solução, após uma noite descansada e bem dormidos as coisas pareceriam mais fáceis.
As esperanças eram poucas, pois a solução dos “flats” resultou do facto do referido hotel, assim como outros da zona, estarem lotados quando se tratou da viagem. Mas como a esperança é a última a morrer, lá fomos.
Chegados ao hotel, deslocados no jipinho, o meu amigo foi logo reconhecido pelo empregado de serviço; “Então doutou, por cá? E desta vem sozinho?” aqui o meu amigo ficou um pouco atrapalhado, não por ele, mas porque aquela conversa podia induzir a mal-entendidos.
-Oh José, estamos com um probleminha. Precisamos de quarto. Tens?
Ficamos com a respiração suspensa da resposta do recepcionista.
Aqui convém acrescentar que estávamos mesmo num hotel. Tal como em qualquer parte do mundo civilizado, na marginal frente á praia de Fortaleza, aqui sim. Seria um sonho. Mas depois de tudo o que nos tinha acontecido, ninguém acreditava em milagre.
E nisto porque chegava um grupo que fazia o seu chek in, tivemos que aguardar.
-José, cê na esqueça da gente, tá? Dizia o meu amigo, no seu brasileiro rebuscado, mas que servia para o empregado não se esquecer. Entretanto um de nós, como não quer a coisa, dizia baixo, mas de forma que o rapaz ouvisse, “oh pá, se ele arranjar quartos para nós temos de lhe dar uma boa gorjeta.”
Despachados os turistas retardatários. Chegou a nossa vez. O moço teclava no computador e todos nós, á uma, nos debruçamos sobre o balcão na ânsia de espreitar o que se passava.
-Chega o veredicto; -“doutou, tudo bem, vou arranjar quartos pa vocês. E para todo o tempo!”
Impossível, os nossos ouvidos não estavam a ouvir bem. Era do cansaço. Pedimos para ele repetir e ele repetiu.
Apeteceu-me saltar o balcão e abraçar o homem. Contive-me, afinal merecíamos aquela sorte depois de tudo o que passamos.
Pessoal, vamos buscar o resto da malta. Eles nem vão acreditar. Telefonamos para prepararem as coisas e lá seguiram no jipinho para trazer pessoas e bagagens, recorrendo como é óbvio a mais uns tantos táxis.
Porém eu já não sai dali. É o sais! E vamos que o fulano dava os quartos a outros? Não. Não ia correr esse risco. E depois sempre ficava mais um lugar para a viagem. Eu até tinha as minhas malas ainda fechadas.
Chegou a bagagem, e as filhas, já meio a dormir aquela hora da madrugada estavam estupefactas com o hotel, porque já estavam a ficar habituadas aos “outros”. Feito o chek in, subimos ao quarto e dormimos que nem uns justos, mesmo com o AC a fazer um barulho não de acordo com a classe do hotel.
Nem o ouvi e reclamações nem pensar. Não há dúvida, as reclamações são sempre relativas. Se fossemos direito àquele hotel e déssemos com a situação, fazíamos um chinfrim que só deus sabe. Assim, quem se atreve? Quem? Quem quiser que se mude. No outro é melhor…
Após 4 viagens de táxi, percursos a pé e outros de jipe, num total de 3 voltas á cidade, merecemos o sono daquela noite.
Restava esperar que o resto das férias fosse melhor…
E quase que foi, mas o resto será contado outro dia que hoje, estou quase tão cansado como naquele dia, naquela noite…
Abençoado Brasil…
É sempre assim. Chegado o Dezembro, mês bom, mês mau, consoante se recebe ou se paga o 13º mês, estamos logo a pensar na passagem de ano.
O Natal, esse traz sempre umas prendas, consoante as bolsas, as oportunidades e a quem se destinam.
No período que antecede o dia 25 há sempre uns convites para uns jantares de fim de ano, daqueles que os empresários “oferecem” aos empregados, clientes, fornecedores e amigos.
Há sempre aqueles que pensam quanto “participaram” eles para aquele jantarinho.
Os clientes, pensam, o gajo levou-me mais uns cêntimos no último negócio, deu logo para pagar isto. Ao menos vou-me vingar e atacar aqui o leitãozinho.
Os fornecedores, vão magicando, aquele desconto que o gajo me obrigou a fazer, dava para pagar isto e muito mais. Pró ano, eu digo-lhe. Mas já no ano passado foi assim.
Os empregados, normalmente pensam menos, porque o salário é igual e sempre sentem algum consolo porque afinal, a diferença entre ir ou não ir ao jantar era a mesma e assim, sempre se aproveita qualquer coisita. E depois, o patrão sempre nos vê por lá. Bom, e aquela colega que me lança uns olhitos, pode aparecer, … logo se vê.
Finalmente os amigos, sendo os únicos desinteressados, vão sem pensamentos que não seja o de melhor companhia proporcionar.
Até pergunto, afinal, porque não se faz isto apenas para os amigos?
Não, não é por eu ser convidado apenas nessa qualidade, é porque ficava mais económico, era menos confusão e até podia acontecer sair o rancho melhorado.
Pronto. Que fossem também os empregados, afinal deram o litro para a coisa “dar”.
Bem, o fornecedor também deu um jeito para o tal produto chegar mais cedo e o cliente resolveu aquela letra logo no prazo e só isso poupou uma … e não devolveu a encomenda que feita á pressa saiu menos bem.
Está bem. É melhor ficar assim e já agora convida-se também o homem do banco que lá vai dando uma ajuda. Nada de mais, só não complicando, já ajuda muito.
Neste clima, lá tivemos um sócio da Tertúlia que fez coincidir a sua festa de Natal da empresa com uma sexta feira e convidar-nos a todos para participar.
Uma mesinha á parte da confusão e foi uma maravilha.
Pena foi o de outros sócios não lhe terem copiado o exemplo. Fecharam-se em copas e …
Pensavam que ia dizer que eles criticavam. Não. Incapazes disso, tudo gente fina…
Depois lá veio o Natal e a transição de ano.
Neste meio tempo o nosso senhorio, portou-se mal. Muito mal.
E foi tão ordinário que não merece que se brinque aqui com ele. Não tem classe. Desconfiamos que frequenta as casas e famílias da linha, Cascais, por aí. Mas não tem nível.
Essa a razão pela qual decidimos mudar de instalações.
Fique lá com a casa e agora vá alugá-la ao caraças.
E depois de muita procura e escolha, encontramos o que pretendíamos.
Vamos mudar para Monsanto.
Foi pena ter de recusar muitas ofertas que nos fizeram, já que era uma honra para muitos proprietários poderem dar guarida a tão ilustre e bem comportada gente, como somos nós.
Em Fevereiro as noites de sexta vão ter ares novos.
Até vamos ter piscina. Sim, leu bem e depois?