Pois é, demorou mais algum tempo mas cá estamos.
Porquê o quê? Demorou porque temos estado muito ocupados com tarefas inerentes ás actividades das ultimas semanas.
Que tarefas? Bom, a caça, os pratos, o futebol e ainda a organização das coisas da Tertúlia, nomeadamente a procura de novas instalações.
Nesta altura do ano, já é normal as coisas complicarem-se. Estamos habituados.
Interroga-se o meu(a) amigo(a) sobre o conteúdo funcional das tarefas descritas (frase com nível hem!?).
Diremos então que a caçada não foi bem uma caçada. Não, não fomos ao talho nem ao mercado. Não é disso que se trata. Foi mesmo uma caçada, embora do tipo, não te canses.
Eu explico.
A coisa funciona assim;
Há uns tantos donos de espingardas, algumas já com ferrugem por falta de uso, que para lembrarem tempos idos de grandes estórias querem dar uns tirinhos á passarada de penas. (convém explicitar que em relação a outras espingardas, de uso mais pessoal, não têm ferrugem, a fazer fé nas gabarolices, e a pardalada é outra...).
Depois há quem organize a “largada”, é assim que se chama e feitas as inscrições, lá vamos para o campo, carregados com vários objectos mas sempre esquecendo o que mais falta faz. Também é sempre assim e por isso até aqui, tudo normal.
Chegados ao local da concentração, acontece a primeira coisa “agradável”. Esperar até cansar por aqueles que se estiveram nas tintas para levantar o cu da cama e sabem que, lá no fundo a rapaziada espera sempre. Boa malta e respeitadora do meu amigo, aquela.
Mesmo havendo quem estivesse com pressa, não foram suficientes as ameaças de abandono se a coisa não avançasse. Pelo que percebi é mesmo assim. Quem vai até ali àquela hora, depois não vai embora sem despejar a cartuxada toda. Tá na génese dos donos de espingarda.
Quando os mais retardatários quiseram chegar, lá fomos em cortejo auto por veredas e afins, onde os jipes e carros velhos levaram a melhor sobre outros. Até lá estava um carro da câmara de Lisboa, mas deve-se ter enganado, ia certamente para alguma vistoria ou obra e quando se apercebeu que era sábado, desviou-se um pouco. Nada de importância. Lisboa está a mudar...
Chegados ao local, pensámos logo “agora é que vai ser. Onde tão os passarões?”
Armei logo a espingarda recorrendo àqueles gestos clássicos de quem sabe muito da coisa (embora já não pegasse no “ferro” há tanto tempo que já nem me lembrava bem como era. Mas é como andar de bicicleta... mais ou menos).
Espanto nosso. Eis que se arma uma mesa de campismo, estende-se uma toalha que o vento teimava em fazer fugir do local apropriado, colocam-se uns copos, sacos de plástico com “casqueiros” adequados ao acontecimento, uns pastéis, chouriço, presunto, menos, a malta começa a rapar das navalhas de bolso, muitos exibindo-as como se estivéssemos num concurso de quem tem a “naifa” mais rústica, assim a modos como os putos da cidade fazem em relação aos telemóveis, só que ali não era melhor a mais pequena, mas a mais retorcida e a que melhor história tinha por trás.
Nisto, passa-se algo de notável. Um dos participantes fez-se acompanhar dos seus cães de caça, acho que só para lhes dar ar, já que os animais naquela organização não tinham entrada. Um deles lembra-se de alçar a perna, exactamente na perna da calça do último a chegar e que vinha no tal carrito dos serviços municipais.
Fui exactamente eu que chamei a atenção de todos, não permitindo que a coisa passasse despercebida. Foi um dos meus momento de glória, talvez mais vingançazita pela espera a que fui forçado.
Passados minutos ainda eu voltava á carga, adoptando o meu ar ingénuo, conveniente nestas circunstâncias, perguntando se aquelas mijadelas eram habituais. Depois ainda, quando já se estava a esquecer a coisa, voltei, “...e isso agora não incomoda, não vai cheirar mal, não atrai as cadelas, etc., etc.,...” até observar um olhar daqueles que davam tiros se pudessem.
-Desculpe, disse com ar sonso, mas deve ser tão desagradável.
-Estou habituado. Nós caçadores somos assim.
Pensei, claro, ser caçador deve ser a mesma coisa que urinol de cães.
Bem, gozados estes momentos enquanto a rapaziada, já quase esquecida ao que ia, no meio do petisco e dos copos de água-pé, começam a fazer um sorteio.
-“Querem ver que eles sorteiam já, aquilo que cada um vai levar para casa e diz que caçou?”. Mas não, afinal era para saber o local onde cada “atirador” ia ficar. É assim que se diz, “Atirador”. Coisa fina.
Calhou-me um dos novos sócios da Tertúlia como parceiro de “Porta”, aliás uma pessoa de quem já muito tinha ouvido falar e a minha curiosidade era alguma, porque habitualmente quando se fala muito de uma pessoa não é para dizer bem. Neste caso, contrariada a regra, vim a confirmar tratar-se de um amigo ás direitas, caçador de longa data, claro e que até me fez o favor de explicar como a coisa ia funcionar nos seus pormenores. Tão boa pessoa que até me atribuiu algumas peças de caça, daquelas que seguramente fui eu que atingi. Coisa rara em caçador. Tipo fixe. Gostei dele.
Bom, sem entrar muito em pormenores do acto e das fintas que faisões e codornizes foram fazendo aos atiradores-caçadores de fds (leia-se fim de semana), direi que a melhor do dia, foi ainda protagonizada por mim. Por quem havia de ser?
Parece mentira, mas como não sou caçador, todos acreditam e podem porque é mesmo verdade.
Os ovnis, para mim não são mesmo identificados em voo, uns maiores outros nem por isso, logo mais difícil de acertar, tal como num jogo de computador, são criados em cativeiro para este fim. Sim, é mesmo o Fim da maior parte deles.
Um deles, sortudo até certo ponto, conseguiu passar através de dezenas de tiros dos atiradores em redor da nossa porta e mesmo do meu colega. Por mim, não admira que não tenha acertado, o “gajo” vinha quase em voo picado, direito a nós e a minha preocupação não era tanto acertar nele, mas mais, ele não acertar em mim.
Contudo, consegui perceber que o passarão, sem mostras de ter sido ferido, teria aterrado próximo do nosso local, após uma estrada que estava á nossa frente.
Ouvido o som da corneta que anunciava o momento de trocar de “porta” e passar ao local seguinte, era também a altura em que cada atirador procurava as peças atingidas e as reunia no local que abandonava. Não se perdiam as peças e sobretudo, procurava-se impressionar os que vinham a seguir, que teciam sempre um comentário sobre o que encontravam. Percebi depois que independentemente do número de “abates” o comentário era sempre o mesmo;
-“Os gajos que aqui estiveram, afinal não mataram muito...”
Faz parte dos preceitos da coisa.
Bom, quando acabou, dirigi-me logo ao local onde tinha visto aterrar o tal passarão e obviamente que não levei a arma.
Galgada a estrada e encontrada uma passagem entre os silvados, eis que me dou logo com uma vista impressionante;
Um belíssimo e enorme Faisão, com toda a sua plumagem colorida, poisado num ramo das silvas, apanhando o belo sol da manhã, como se nada de extraordinário se passasse á sua volta.
Aproximei-me dele, muito devagarinho e, embora procurasse a máxima concentração, não consegui evitar um pensamento sobre se algum dos experimentados caçadores estivesse a observar de longe a cena, eu iria ser gozado no final, até á exaustão. Isto se o bicho fugisse como tudo indicava que iria acontecer. Por outro lado assaltava-me a emoção de conseguir apanhar o pardalão, á unha, sem dor nem sofrimento e sem o barulho de tiros. Fui avançando devagarinho, sem fé mas com esperança. De repente, zás! Estiquei as mãos e apanhei o bicho mesmo pela melhor zona, junto ás asas, evitando que ele “esbracejasse” (como é que se diz em relação ás asas? Não sei.).
Foi uma sensação de êxtase. Triunfo total. O não caçador apanhou o maior e mais bonito (digo eu) faisão á mão. Nem dava para acreditar. O meu amigo e colega bem procurou se ele estava “chumbado”. Qual quê. Nada. São que nem um pêro.
Bem, mas o pior estava para vir. Como se iria resolver em relação ao bicho? Por mim deixava-o ir á vidinha dele. Mas para um caçador isso é absolutamente contra-natura.
Não tive outra solução senão abandonar rapidamente o local com falta de coragem para assistir e ser ainda mais conivente com o assassínio do animal.
Tá visto. Não dou mesmo para caçador. Lá dar tiros para o ar, pensando nos ovnis ou mesmo nos pratos que estou habituado a atingir, ainda vá que não vá. Mas assim, á mão, a sangue frio. Que me perdoe o colega, mas é demais para mim.
Deixemos isso, porque nem quando o comia, uns dias mais tarde, me recordei mais disso.
São estas consciências duvidosas que marcam a diferença entre aqueles que comem caça e os outros.
Uns são ambientalistas, outros defensores dos animais, outros simplesmente, nunca tiveram á frente deles um belo faisão, bem coradinho numa travessa sobre a mesa.
É a vida (e há coisas que não devem servir para fazer humor, adiante,).
Bom, terminada a sessão, ou melhor, os animais transportados, reuniu-se o pessoal para nos dirigirmos para o restaurante onde ia ser servido o almoço, que por sinal já eram horas.
Logo ali junto aos carros, começaram as primeiras estórias sobre as aventuras e desditas de cada porta (local de tiro).
Por mim, lá fui repetindo sem conta;
-Eu já lhe contei o que me sucedeu?
E sem esperar resposta, disparava logo,
-É pá, apanhei um Faisão enorme á mão. E olhe que não estava ferido. Bestial. Uma desta é que você nunca viu. (nem tão pouco admitia o interlocutor ter executado a façanha, era mesmo,... nem nunca viu... quanto mais ser ele o autor.)
Ao princípio, ficavam um pouco incrédulos. Aí eu avançava com ar modesto,
-Bem, sabe, são animais de cativeiro, habituados a ver pessoas, etc., etc.,
Ficavam mais sossegados e aceitavam melhor a coisa. Depois, porque tinha testemunha a coisa era real. Por isso, sempre acrescentava;
-O pior foi o meu colega ter de o matar á mão. Eu não fui capaz.
Pronto, decididamente eu não era demasiado másculo para o marialvismo daqueles pretensos caçadores. Assim tá bem, já aceitavam a coisa como mais natural. Não tinha sido nenhum dos “deles” a cometer o acto.
Aliás se fosse, “... Dava cabo dele com um tiro...” e depois se calhar ia dizer que o bicho estava muito longe e...
Bom, veio o almoço, um bom cozido á portuguesa e logo de seguida distribuíram-se as aves abatidas pelos grupos de forma tradicional, onde o sorteio mais uma vez evitou as questões de “...a galinha do vizinho é melhor que a minha...”.
Pior. Mesmo pior, foi quando á despedida veio a conta de cada um.
Não, não digo quanto foi porque tenho vergonha. Também não deixei lá a espingarda porque não era valor suficiente para a despesa. Enquanto me lembrar, não há mais “largadas” onde me “apanhem”.
Será que os bichos tinham motor no cu? Foram criados a caviar?
É pá foi mesmo caro, porra!
Na sexta seguinte, nem havia coragem para falar muito na coisa.
Apenas eu contei trinta vezes que apanhei o .... á mão, claro.
Até sexta que se faz tarde.