Ilustres convidados continuam a honraram com a sua presença os nossos jantares de sexta-feira. Esta prática estava um pouco esquecida, mas é importante que se mantenha. A Tertúlia sabe receber e todos gostamos de ter entre nós outros amigos.
Curiosamente, os convidados tradicionais (daqueles que apareciam sem serem convidados), há muito que não nos visitam.
Bom, iniciada a nova lista de responsáveis pelo “tacho”, para as próximas 32 semanas, fomos presenteados com um prato muito apresentável, totalmente confeccionado pelo seu promotor.
A ementa, lombo de porco assado com castanhas, estava de facto bem.
Porém, aproximando-se a hora convencionada, todos achamos estranho que não houvesse a tradicional confusão de tachos e panelas, cascas e restos de produtos hortícolas, saladas e outros que tais, os apetrechos dos temperos, etc.
Começaram os murmúrios pelas salas onde os sócios se iam entretendo com as últimas conversas dos negócios e outras curiosidades da semana que terminava.
Não. Não podia ser. Alguma coisa estava a correr mal. Teria havido algum problema?
Diz um dos sócios:
- Oh pessoal, cá para mim houve “gaita”. Certamente foi apanhado pela Guênêrrê quando ia a falar ao telefone.
- Não pode ser, ele raramente faz isso. É muito respeitador do código.
Diz logo outro;
- Tal e qual, agora é que acertaram. Ele a maior parte das vezes nem está a telefonar e anda á mesma com o telefone encostado ao ouvido.
-Ná, vocês não sabem nada disso. O nosso amigo combinou aí um negócio de fullon e quando lá chegou estava já “a máquina ligada”, quer dizer, já lá estava outro.
Então, entra o “chefe” na conversa e esclarece todas as dúvidas;
-Vocês não vêm que não temos aqui forno e a ementa exigia isso.
Alivio geral. Mas não era suposto cozinhar aqui umas entradazitas?
Claro que era. Então mas os colegas não repararam que estamos sem gás?
Espanto total!
Fizemos uma deslocação ao exterior para confirmar e uns após outros, quase todos verificaram a ausência da botija do gás.
Fomos roubados. Roubaram a Botija do gás.
Quem havia de dizer uma coisa destas.
Fizeram as mais variadas conjecturas e especulações. Houve sugestões que chegavam para roubar um camião de botijas, mas era imperioso decidir a que autoridade recorrer para participar a ocorrência.
A primeira sugestão foi a GNR. Levantou-se um coro de protestos.
Claro, quatro dos presentes tinham multas para pagar e não queriam nada com eles.
Longe, longe. Disse alguém.
O presidente que entretanto tinha chegado, tomou a liderança do processo e afirmou;
- Isto tem de meter a judiciária ou no mínimo o Ministério Público.
Riu-se um dos sócios;
-Olha, olha, uns querem logo saber a idade da botija e os outros se houve alguma carta anónima a denunciar o roubo.
Pois, por aqui era difícil obter resultados.
Foi então decidido entregar o caso a um detective particular, desses que tratam dos processos de divórcio e cobrança das dívidas difíceis.
Com tudo isto, chegou o homem com a comida, foi esquecido o incidente e todos abancaram á mesa.
Tarde, já tarde, terminámos a nossa sexta feira.
Crónica dos Bons Amigos (IV)
Se me tivessem contado, eu muito dificilmente acreditaria.
Contudo, foi real e a sua imprevisibilidade não me deixou indiferente, razão pela qual aqui vos trago esta crónica.
Não há muito tempo, já nas actuais instalações da Tertúlia, numa normal noite de sexta feira, era responsável pelo “tacho”, um sócio com responsabilidades acrescidas já que profissionalmente tem uma relação muito forte com o sector da restauração.
Há mesmo quem esteja desejoso do dia desse colega para apreciar petisco diferente e tradicional.
Assim foi também nesse dia. Apesar de ninguém já se lembrar ao certo da ementa, tenho para mim que teria sido pernil de porco assado no forno.
Entradas também especiais e sobretudo diferentes de outros dias.
Tudo foi muito saboreado, com aquela sensação de quem está a cometer um atentado ao colesterol e outras agressões ao organismo.
Degustado o prato principal, avança a sobremesa, que já tinha sido espreitada por alguns e que faz a delícia de muito boa gente, quando está bem feito.
Tratava-se de Arroz Doce.
Duas boas travessas de arroz doce, onde a canela não foi citada, mas que talvez tenha estado presente.
Os mais despachados, avançaram então com os seus pratos adequados e lá se serviram do pitéu.
Passados alguns momentos, quando já se tinham servido 3 ou 4 sócios, começou a notar-se um silêncio fora do normal. Ao mesmo tempo, uns olhares por cima dos óculos, tentavam perscrutar o semblante dos que já comiam.
De facto já se percebia que algo não estava bem com a sobremesa. Mas o quê?
Surgiram então as primeiras perguntas; Há aqui qualquer coisa de estranho, o que é?
O primeiro a servir-se ria e avisou;
- Para mim está a propósito. Os meus diabetes não vão subir.
Pois foi. Alguém se esqueceu de deitar açúcar no Arroz Doce.
Esquecimento total. Não tinha pitada.
Muito riso no meio da frustração do que se esperava ser uma boa sobremesa.
Para o autor, ou pelo menos responsável pela ocorrência, passou por uma “vergonhassa” , ou não fosse ele muito senhor das suas especialidades.
Fez, o que qualquer outro faria no seu lugar, desculpou-se conforme pode.
Mas o certo é que assim baptizámos uma nova especialidade
ARROZ DOCE Á TERTÚLIA. Bom para diabéticos.
Esta semana fechamos um ciclo de comemorações de aniversários de dois dos nossos estimados sócios, que completaram precisamente a bonita idade de 30 anos, (mais coisa, menos coisa) curiosamente apenas com um intervalo de 3 dias, “facto que já acontece há alguns anos a esta parte”. (os gajos até nasceram no mesmo ano)
Da ementa desta semana, previamente acordada, constava uma caldeirada de peixe confeccionada na hora.
Nas entradas quisemos fazer uma experiência, de ovos mexidos com farinheira, um excelente pitéu, quando bem feito.
Para além disso, os queijinhos do costume, gin-tónico, etc.
A rematar a coisa e em alternativa ao “chato” do bolo de anos, chegou-nos um doce, fabricado pela consorte do segundo aniversariante, que apesar de se apresentar em doses industriais, nunca sobra. É como os impostos da FL, por mais que paguemos nunca chega.
Bom, parece até aqui que tudo estava bem. Lamentavelmente assim não aconteceu.
Em primeiro lugar, o chefe orientou mal o serviço em matéria de horário. Não querendo correr o risco de acabar a comida cedo de mais, a mesma ficou pronto uma hora depois do previsto. Um pequeno erro. Se fossem duas horas era muito grave.
Quando se viu que a coisa estava preta e já se ouvia os estômagos dos presentes a reclamar, avançou-se antes de tempo com uma 1ª fase dos ovos com a farinheira.
Preparada a farinheira, partem-se propositadamente 6 ovos, dos 18 que se apresentaram ao serviço, e numa pequena frigideira que são precisas duas pessoas para pegar no cabo, já com excesso de gordura, tipo margarina ou óleo, colocou-se a farinheira.
Surgiram logo as primeiras reclamações ao processo. O enchido estava a fritar e ia deixar um gosto muito forte.
Quando olhámos melhor, concluímos que tanto o enchido, como a gordura estavam em excesso. Nova onda de reclamações, agora já com alguns assobios á mistura e palavras ofensivas ao chefe, como se de um jogo de futebol se tratasse e ele fosse o árbitro.
Neste momento, a primeira operação de socorro. O chefe agarrou a frigideira com ambas as mãos, num esforço sobre-humano, outro sócio ajudou com um garfo e lá se escorreu metade do “molho” para o lava-loiça.
Deitados os ovos que dois voluntários foram partindo um por um, para uma enorme saladeira, afim de salvaguardar a participação de algum pinto não convidado, verificámos que os mesmos não se viam dentro da fritadeira.
Um sócio que se tinha distraído, continuava a dizer; “deitem os ovos, deitem os ovos...” , qual quê, tudo continuava castanho, da cor da farinheira que continuava teimosamente a fritar ao longo destes preciosos minutos que mais pareceram horas.
De imediato, alguém disse; “É pá, parte mais dois ovos”, como se isso resolvesse alguma coisa.
Naquela altura, se marchassem os 12 sobreviventes talvez a coisa se recompusesse, agora assim, foi chover no molhado.
Bem, numa confusão nunca antes vista em torno da chaminé e do fogão, entre empurrões e esticar de pescoços para ver o que estava a acontecer “áquilo” esquisito dentro da frigideira, fomos mexendo, mexendo, numa vã esperança de que o calor do lume “bebesse” alguma da gordura que não desaparecia de forma alguma.
Dos ovos ou da sua cor, nada. Até que o “chefe” disse: “pronto, isto está acabado. Apaga o lume.”
Nesta altura, confesso que me convenci que ia tudo para o lixo. Olho para ele, sempre sorridente (tem a particularidade de quando a coisa corre mal, sorri muito) e através de uma piscadela de olho, dispara ; “nunca fiz isto tão bem feito. Está uma delícia.”
Com a ajuda de uma colher lá enchemos 4 pequenas saladeiras, onde normalmente colocamos as azeitonas e fomos para a mesa experimentar o “pitéu”.
A intenção era só fazer a experiência, até porque ainda não tinha chegado toda a gente, nem o nosso convidado de honra.
Quer-se dizer, o petisco, longe de estar bom, não estava tão mau como esperávamos e marchou todo, com pão, sem pão, com garfo, com colher, enfim, comeu-se tudo.
O que faz a fome!
O certo é que passados alguns momentos e já com a presença de todos, alguém disse; “Bem, vamos lá fazer o resto dos ovos e agora esperemos que fiquem melhores.”
O chefe, com o seu riso amarelo, disparou peremptório;
-“Não há mais ovos nenhuns. Já lavei a frigideira e a comida está quase pronta, depois ninguém come a caldeirada.”
De facto, daí a 45 minutos a caldeirada estava pronta.
Esta passagem, aliás, fez-me lembrar a anedota sádica do pedinte que na entrada do metro, á saída dos empregos, pedia uma moeda para comprar uma sandes e alguém apressado, olha para ele e diz; “Não, porque depois você já não janta”.
Em conclusão, foi traumatizante, mesmo para o chefe.
Valeu a caldeirada que salvou a noite e depois o doce no final que até fez os apressados esquecer a fruta.
Mas o certo é que o nosso “chefe” esmerou-se na caldeirada. Estava um espectáculo, com o peixe muito bom, bem cozido, as batatas sem se desfazerem e um molho divinal.
Salvou assim a noite e já ninguém mais falou na entrada, que mais foi uma saída.
Depois como habitualmente, conversámos sobre tudo e sobre nada, outros jogaram enquanto se foi levantando a mesa e lá muito para o final da noite, até convencemos o nosso convidado para uma partida de TRIVIAL, onde se pôs á prova os conhecimentos de cada um.
Foi mais uma noite de sexta feira.
(Resposta ao comentário produzido por "alguém" registado em 12-01-04 no texto "AS NOSSA FÉRIAS")
Vimos informar ALGUEM que falhou por pouco o prémio que temos para atribuir de uma excepcional viagem (talvez virtual) para o melhor comentário aos textos da Tertulia.
Estava muito bem até ao momento em que se põe em dúvida a existência do "sexo fraco. "
É fraco porque racha.
O outro, é forte, firme e hirto como uma barra de ferro (nem que seja á custa dos coisitos azuis).
E depois, bem e depois, senão for nestes desabafos que lhes chamamos uns nomezitos estamos tramados porque ELAS CONTROLAM TUDO.
ELAS decidem TUDO. Estão em maioria em todo o lado, em casa, na escola, na saúde, na justiça, nas empresas que previlegiam o intelecto, ELAS dão-nos volta á cabeça, ELAS até nos fazem criar a ilusão de que nós, "o sexo forte", mandamos alguma coisa.
Em conclusão, tá visto que uma coisa é "sexo fraco" , outra coisa é... . é... , é a vida...
Valha-nos as sextas-feiras, em território LIVRE (as marias não entram na Tertulia do Alviela).
Sejamos Reis por uma noite.
A noite de sexta-feira.
Após aquelas atribuladas mini-férias que fizemos referência no último escrito, eis que chegou a primeira sexta de 2004.
E logo com a comemoração do aniversário de um dos membros da Tertúlia, sendo certo que na próxima comemoramos novo aniversário. Isto aliás alterou a escala dos responsáveis pelo “tacho”, já que aqueles aniversariantes juntaram-se para as duas semanas. Logo se acerta.
A direcção da tertúlia (que não foi consultada) aceitou a troca com a condição do rancho ser melhorado.
A ementa foi um prato típico regional, conhecido por “cachola”, ao qual antecedeu umas entradas de camarão (a sério), para além daqueles pitéus dos pastéis e rissóis da ordem.
Para os que não gostam da cachola, sobretudo os mais novos, marchou um kilito de febras no tacho, feitas pelo “chefe”, que deitavam um cheirinho tremendamente aliciador. Batatinhas novas, cozidas com pele. Não sobrou nenhuma.
Enfim um dia memorável de regresso ás lides, pois bateu-se um novo recorde de presenças nas actuais instalações, com muitos amigos.
É verdade, tivemos uma excelente participação de 6 convidados, entre os quais um amigo espanhol, que já recuperou daquele célebre jantar (?) dos mini-frangos.
Tudo correu bem tirando dois membros que com a pressa de acenderem as velas, meteram as mãos dentro do bolo. E têm diabetes, senão... Mas foi pena, o bolo estava tão bonito, tinham de fazer aquilo.
Paciência. O aniversariante ficou incomodado, deu para ver, que depois se pôs a cortar o bolo ás fatias tão pequeninas que nem se viam.
No final percebemos porquê.
Ele queria ter um restinho para deitar fora...
Conversamos muito, pois havia muita “calhandrisse” para por em dia e houve uns joguinhos de cartas e dados até ás tantas.
Esperamos que os nossos convidados ficassem satisfeitos e possam regressar em breve.
No final, quando fomos levar os sacos do lixo ao contentor, verificamos com surpresa que o mesmo se tem vindo a deslocar para mais longe.
Sabemos que nunca convidamos (nem vamos convidar) ninguém da câmara para os nossos jantares, mas daí a mandarem “fugir” o contentor, não se faz.
Uma nota final para a limpeza das nossas instalações. Estamos fartos de espalhar o sujo com a esfregona e a WC precisa mesmo. Vamos ter que levar lá alguém do sexo fraco para uma limpeza a sério.
NR) Os nossos leitores habituais que nos perdoem a crónica desta semana ser sensaborona, mas os “elogios” que fizemos aos convidados e o ar sério que quisemos dar á “coisa”, obrigou-nos a ser comedidos.
Na semana entre Natal e Ano Novo muitos aproveitaram para uns dias de descanso merecido.
Alguns membros da Tertúlia reuniram-se na zona mais desfavorecida e inóspita do país, onde chove muito e quase não há qualidade de vida.
Estamos a falar do Algarve, precisamente em Vilamoura.
Uns em casa própria, outros em casa doutros e ainda no hotel, ao jantar do reveilon éramos 28 pessoas.
Falamos, comemos e bebemos, um “sobe e desce” é sempre bem-vindo, uma partida de ténis, uns joguinhos de bowling caminhadas e corridas a pé e de bicicleta, foram entretém ao longo destes dias.
Também houve quem trabalhasse qualquer coisita, pouco.
Não cheguei a cansar-me no sobe e desce, nem de cartas nem no outro. No ténis os parceiros eram fracos e no bowling um pouco mais duro mas suportável. Até deu para bater recordes pessoais (178 pontos não é mau).
Mas violento, violento, foi a bicicleta. Logo ao princípio a deslocação até á bomba de gasolina, depois de esforços inglórios com a bomba manual que deu cabo da coluna com um mau jeito que lixou as cruzes.
Depois uma primeira corrida, a partir da bomba com destino a casa, a cerca de 3 km.
Destino sim, porque no fim da primeira subida deu logo para ver que a máquina estava avariada. Puxava para trás. Qualquer motor invisível, qualquer coisa que parecia obra de bruxaria, impedia a bike de cumprir o seu destino e eu de chegar ao meu.
A filha que de carro acompanhava a corrida, aceitou a troca das 4 pelas 2 rodas. Alivio total. Filha querida. Tenho de lhe aumentar a semanada.
Cheguei a casa já recuperado e pronto para nova aventura.
E assim foi. Duas horas mais tarde lá foi toda a família, dois a pé e outros tantos de bike, lá nos lançamos num circuito ambicioso.
Por coincidência a mim calhou ir de bicicleta. Mas acompanhar quem vai a pé não é tarefa fácil. Isto originou andar para a frente e para trás, acelerar e travar, subir e descer, etc.
Foi um fartote.
Após regressar a casa foi a vez de encher a banheira e acompanhado de um gin-tónico e umas alcagoitas, lá lemos o jornal (era dia da Visão), até a sonolência apertar. Quando tudo começava a correr bem, eis que chega o grito dos lados da cozinha anunciando o jantar pronto.
Chatisse. Eu estava a pensar em ajudar a fazer o tacho e passou-me...
Pensei; fica para amanhã.
Bom, mas o melhor, ou antes, o pior, estava para vir.
No dia seguinte, quando me levantei e fui á casa de banho, surpresa.
Estava meio paralisado. O simples e normal acto de sentar e levantar da sanita foi uma tragédia. E limpar o sim-senhor nem se fala.
Os nomes que mentalmente chamei á bicicleta nem sabem.
Mas pensei; o que vou fazer? Insisto nos treinos e nos passeios, vendo a bicicleta, destruo-a, simplesmente ignoro-a?
Deixei esta decisão para mais tarde, porque as dores apertavam e deixavam-me o cérebro confuso.
Ao longo do dia, o desconforto era tamanho que me levou inúmeras vezes a deitar as mãos ás calças, num daqueles gestos que fazemos como quando temos as cuecas metidas no cu. Não resolvia mas aliviava.
As dores eram naquela zona das bimbas que nós conseguimos agarrar quando lançamos as duas mãos ao mesmo tempo á rabadilha.
No dia seguinte, ou seja, após 48 horas, ainda dorido, dei comigo a pensar se não seria possível uma bike com almofada no selim ou substituir essa peça por algo parecido com um banco, cadeira ou algo mais confortável.
Felizmente que no reveilon já tudo estava normal e deixou-nos brincar e dançar até que o champanhe e o whisky permitiu, ou seja, para lá das 4 horas da manhã.
Que se lixe 2003 e as dores da bike.
Viva 2004
CRÓNICA DOS BONS AMIGOS (III)
Há alguns anos atrás, por razões profissionais, tive de me deslocar a Bruxelas. Como nunca tinha visitado Berlim, (o muro tinha caído um ou dois anos antes e era ainda para a minha geração, algo que fazia parte do imaginário, da guerra fria, dos “bons” e dos “maus”, entre muitas outras coisas) decidi fazer a viagem com escala nesta cidade, indo dois dias mais cedo.
Como tinha família na parte ocidental da cidade, não necessitei de dormir no hotel e tive cicerones em língua portuguesa (mais ou menos).
As minhas anfitriãs, resolveram convidar uns amigos para o jantar e cozinharam algo muito “europeu-higio-ecológico” presenteando-me com qualquer coisa indecifrável, classificado de vegetariano.
Como devem ter tido alguma pena deste português perdido, sempre deram um salto á loja de conveniência mais próxima, afim de comprar uma salada. Já era comestível e sempre disfarçava o apetite.
No início da refeição os meus olhos não despegavam da saladeira, bem cheia e, confesso, nunca o verde me deu tanto prazer á vista.
Após as primeiras garfadas, logo percebi haver qualquer coisa de errado. Olhando para os outros que já tinham provado notei neles alguma dúvida.
Tão depressa me serviram a comida (?) de que apenas descortinei queijo ralado na cobertura, logo me virei para a saladeira.
Mas novamente aquele sabor pouco (nada) razoável que nada tinha a ver com as nossas saladinhas tenras e viçosas.
Pensei, “o raio da salada alemã é dura como cornos”. Deve ser o resto que os comunas cá deixaram. Por esta e por outras é que o muro foi abaixo.
Porém não era só dura, o sabor amargo até arrepiava e fazia nascer água “azeda” nos lados da boca.
Nisto, lembrei-me da história do Rei que ia nu e só a criança viu.
Timidamente avancei; - A salada aqui em Berlim é mais dura que em Portugal!
Os poucos que percebiam a língua lusa, olharam para mim meio desconfiados.
Os outros fizeram um qualquer esgar para ser simpáticos e lá continuaram de volta da espécie de comida que os entretinha.
De repente, fez-se luz na minha cabeça.
Aquilo era uma couve!Não podia ser outra coisa. E eu que também não gosto de couves cozidas, imagine-se cruas.
Os alemães grunhiram qualquer coisa, os franceses riram-se muito (não sei porquê) e as minhas anfitriãs, após uns momentos de incomodidade, acabaram a rir da sua compra...
Depois disto explicado em várias línguas dos presentes, todos concordaram na classificação do vegetal.
Valeu-me o facto da Lufthansa na época, nas salas de embarque dos voos internos, disponibilizar iogurtes em regime de self-service e eu, por mero acaso, sempre guardei qualquer coisita no saco de viagem que depois no silencio da noite me aconchegou no meu quarto.
Ainda hoje, quando me encontro com esses familiares, recordamos com mais animação e saudade desse tempo, do que propriamente do sabor dessa Alface Berlinense.
Desde sempre que nos habituamos ás tão esperadas férias de Natal.
Dos tempos de escola, férias a valer e prendas do menino Jesus.
Depois, mais tarde, do 13º mês e das prendas sim, mas agora para os filhos.
Bom, a Tertúlia não podia fugir á regra. Encerrou para férias.
No dia do encerramento temporário (não, não faliu) as despedidas foram animadas.
Não se pode aqui relatar os votos de prendas desejadas por uns aos outros.
A ementa desse dia foi, foi... foi qualquer coisa que já não me lembro e que se não estivesse bom tinha sido logo desancado no dia seguinte.
Obviamente que este Blog teve a mesma sorte. Suspendeu a actividade teclática (nunca li este termo, acabou de ser inventado).
Esperemos pois que todos os membros da Tertúlia tenham recebido as prendas que queriam, pois se fosse as que merecem tinham recebido mas era o tanas.
Falando um pouquinho a sério, terminado um ano de actividade de todos nós e da Tertúlia, como sempre acontece, foi melhor para uns e não tanto para outros.
Negócios, saúde, vida familiar, problemas profissionais e todas as outras coisas, levaram uma volta ao longo do ano 2003.
Mais um para recordar por boas e más razões. Esperemos que na maioria dos casos seja por boas.
Sejamos realistas; quanto menos bom tenha sido o ano para algum membro, mais importante se torna a vida e participação na nossa Tertúlia. É necessário que encontremos entre nós alguma animação e sobretudo camaradagem que ajudem a ultrapassar as dificuldades e as chateações do dia a dia.
Vejamos o relato das férias que espero tenham sido bem aproveitadas.
Até 2004