Depois de narrar, eu disse narrar, com “N”, as tropelias e diversões que passamos com a nossa chegada ao Brasil, precisamente a Fortaleza, cumpre-nos agora dar noticias de como se passou a nossa transição de ano de 04 para 2005.
Hoje ninguém tem dúvidas que após uma recepção daquelas, o último dia do ano tinha de ser apropriado. E foi.
Compreenderão os nossos leitores que não podemos relatar aqui no blog da Tertúlia o quotidiano dos nossos dias naquelas terras de Santa Cruz. Não pela falta de assunto mas sobretudo porque isso obrigaria os leitores a tirarem férias para ler tudo. Ficaremos por um pequeno resumo e mais em pormenor o último dia do ano.
Os dias, poucos para quem está a gozar a praia, não tanto para quem esteve a trabalhar, passaram rápido e sempre com a mesma rotina.
Levantar cedo, pequeno-almoço bufet no hotel com fruta e sumos até cair de cu, pedir as toalhas na recepção, pedir os carros, arrumarmo-nos e partir com destino á praia. Obviamente que sobre os momentos de trabalho, pelo desprezo que nos merece, nem falamos nisso.
Chegados á praia, procurar um local mais próximo do mar e com mais espaço, abancar e, os mais novos a correrem para o mar, fazerem um passeio de carro ou algo trabalhoso do género enquanto os mais maduros após escolherem o melhor lugar á mesa, começavam por pedir umas cervejinhas para combater os 30 e tal graus de calor.
Cabe aqui uma breve descrição destes espaços, para quem não conhece. As praias naquela região são preenchidas por restaurantes em pleno areal, denominados de “barracas”, sempre com nomes mais ou menos populares e fáceis de identificar. Este espaço não é ocupado com lugares sentados mas apenas servem de apoio e cozinha para confeccionar a comida servida nas inúmeras mesas, á sombra de chapéus de sol, normalmente coqueiros artificiais ou simples colmos, situadas no areal, até onde chegam as ondas em maré cheia. Quem quiser pode deslocar a sua mesa de forma a ficarem com os pés dentro de água ou pedir aos “garçons” que o façam. Tal como no anuncio das Caraíbas.
Por nós, preferimos a barraca da D. Diva na Prainha, em Beach Park não há alternativa e a barraca da Atlântida na praia do Futuro. No Kumbuco, a praia foi substituída pelo agradável convite de um amigo nosso e da Tertúlia, que lá tem casa e estava com a família. Assim uma espécie de barraca melhorada…
Vale referir que, depois das tropelias com os táxis á chegada, optamos por dispor de carros alugados para resolver as nossas deslocações. Carros, como quem diz, o já nosso conhecido jipinho, que foi “confiscado” pela malta nova e depois uma outra viatura, tipo produto branco, sem marca, que chocalhava por tudo quanto era sitio de tal forma que conversar no seu interior era impossível. Só por gestos ou aos berros.
Como o AC ainda não existia na época em que a dita teria sido construída, optamos por circular com a porta de trás aberta, daquelas que sobem para cima. Mais tarde os gases do escape impediram essa “ventilação”.
Apesar de alguns pequenos azares do tipo ficar com a alavanca das mudanças na mão, quando se pretendia “meter” a segunda, a coisa funcionava em perfeitas condições.
Tinha uma grande vantagem; Não corríamos o perigo de ser assaltados. Quando nos aproximávamos de outros carros, estes afastavam-se de imediato. Ainda estou para saber se era receio de que o nosso se desconjuntasse todo e danificasse os deles ou apenas por pensarem que éramos um qualquer gang da zona. Até os mal encarados nos evitavam… já sabem, regra 1 de segurança, parecer pior que os piores…
Quando na praia, era porreiro estar sentado a uma mesa debaixo de um coqueiro (mesmo artificial) e sentir o agradável perfume dos escapes das moto4, buggys, jipes e afins que aceleram no espaço entre o mar e as "barracas".
Lembram-se da barraca Vela Latina, na praia do Futuro, onde marcharam aqueles 4 portugueses que "foram buscar lã e foram tosquiados" ? É isso.
E o pior é que nos divertimos mesmo. Acabamos também por andar vários kms na praia de Kumbuco, aqui com um Buggy a acompanhar o jipe, acelerar a fundo, pisar as ondas e fazer saltar o resto da água da onda. Parecemos todos putos pequenos e felizes pela malandrice feita ao outro…
O nosso agradecimento ao nosso amigo, esposa e demais familia que tão bem nos receberam, felicitando-o pela sua maravilhosa “barraca”. Arquitetura rara pela beleza e funcionalidade, onde os materiais utilizados, madeira e vidro, nos fazem inveja pela qualidade do clima. De facto, só em filmes. Parabéns.
Passados estes dias num instante, chega o dia 31.
É certo que por razões conhecidas, não se pretendia qualquer jantar muito animado e por isso, com a ajuda especializada do amigo brasileiro, marcamos mesa num arraial do clube náutico, junto á enseada, sobre a praia.
Sabido que no local não havia jantar, implicava ter de ir para lá, já comidos. Como isso não fazia muito sentido, o nosso amigo perguntou pelo telefone, tendo-lhe sido garantido que havia serviço á lista. Ok! Serve.
Uma “ceia”, um manjar de Reis, foi tal e qual, na exacta medida do ano que vivemos.
Sentados nos nossos lugares, pedimos aos “garçons” a lista. Parecia que tínhamos dito uma barbaridade a julgar pelos olhares trocados entre eles.
-“Não seôr, nã á lista nã seôr.”
-Espere lá nós telefonamos e disseram que havia serviço de jantar.
-“Nâ seôr, pode falar com quem quiser… a nós ninguém falou isso, né?”
E agora? Quase 10 da noite, onde ir? O que fazer?
-Óh amigo, mas afinal o que tem para comer?
-“Doutô, temo aí uma tapa, um tira gosto, pratinho pequeno, né?”
-Óh pá traga tudo o que tiver e rápido. Olha a cerveja que não demore.
Chegada a cerveja, em lata, deixaram em cima da mesa uns canudos de copos de plásticos, pequenos, daqueles do café. Era por aqui que seria suposto beber a cerveja.
Interrogados os empregados, nada. Não havia copos. Não me conformei e perguntei;
-Òh moço, vais servir o whisky no plástico?
-“Nâ seôr, aí tem copinho de vidro, né?”
-Muito bem, então traz já uma garrafa de whisky e 11 copos. Solução perfeita.
Chegados os primeiros pratinhos de aperitivos, variados, mas todos com pouco, estes vinham com uns palitos para podermos comer sem ser á mão.
Com a promessa de uma boa gorjeta, lá trouxe um garfo de sobremesa para cada um dos “convivas” e assim eliminámos os palitos com que nos servíamos até então.
É o Brasil no seu melhor.
Todos foram unânimes, faltava ali uma pessoa, se Ela lá estivesse, seguramente todos nos levantariamos e iríamos em busca de uma refeição que, por mais normal que fosse, não seria tão degradante.
Assim, ali ficámos meio parvos a rir e a lamentar, para não “incomodar” o amigo brasileiro que teria sido enganado acerca do serviço de jantar, obviamente, extra entrada.
No enorme espaço, calculem, havia uma banda e uma brasileira a cantar, para variar.
Até parece que eles sabem fazer outra coisa.
Ritmo alegre como convinha, perninha sexi ao léu, bunda bem mexida em gestos ultra sensuais, letras variadas que não sabemos se já é outra ou a continuação da mesma, enfim, até conseguiram comemorar o final de ano 5 minutos antes da hora.
Francamente.
Uma virtude apenas naquilo tudo. Permitiu que eu e as filhotas abandonássemos o local mais cedo a caminho do hotel.
Aí, mesmo com as janelas fechadas, o som da festa popular na praia, frente ao hotel, onde os naturais se acomodaram com as mesas, cadeiras e comida que levaram de casa, faziam a sua festa de fim de ano, teimaram em não nos deixar dormir.
E o sono era tão pouco.
Pelo menos esses eram verdadeiros e felizes na sua simplicidade e naturalidade de brasileiros.
O Povão.
Na manhã seguinte, uma estranha imagem da praia, perfeitamente coberta de lixo, onde as garrafas vazias eram maioria entre plásticos papéis e outros resíduos. Havia mesmo desenhos feitos com garrafas vazias enterradas na areia.
O estômago reclamava com urgência pela reparação da falta da noite anterior, o que nos obrigou a caminhar aceleradamente para o bufet. Vingança.
Depois um último dia de praia, mais perto porque o avião de regresso exigia a nossa presença ao fim da tarde.
Era dia 1 de Janeiro de 2005.
Mais sete horinhas de voo e, casa, lar, doce e vazio lar.
Para o ano veremos. Mas também, com a chegada que tivemos, que queriam? Caviar? Champanhe?
Cerveja, copo de plástico, palitos, tapas, e de fartura, apenas fome.
Viva o Brasil !