Não se torna fácil escrever sobre isto por razões que poucos sabem, mas temos de ir em frente.
Este ano, a movimentação tradicional deste evento deslocalizou-se para os países de expressão quase portuguesa.
Sim, esta coisa da deslocalização está muito na moda e se queremos acompanhar a modernice temos de estar atentos.
Foi isso mesmo que resolvemos.
Bom, restava escolher qual o país onde a mão-de-obra fosse mais barata e por razões acrescidas pudéssemos passar despercebidos.
Exactamente onde os nosso leitores estão a pensar. Brasil.
Porquê o Brasil ? Sim podíamos ter ido com o nosso ministro até S. Tomé e fazer por lá uns mergulhos, só que ele estava com o avião cheio de outros amigos e depois, mergulho não era a nossa especialidade, pelo menos em água, logo optámos pelo nordeste transmontano, perdão, brasileiro.
Um sócio comprou os bilhetes, por sinal, também caríssimos, mas devemos ter sido considerados os clientes do ano. Se não da companhia de aviação, pelo menos da agência que os vendeu.
Dia de Natal, papelinhos na mão, malas com peso excessivo, lá rumamos ao terminal dos aviões e num instante, céus fora. Matámos o tempo com uma cartada, como se preza o bom português que de tudo faz a sua casa, sem sapatos, peúguinha ao léu, cheirinho mais ou menos, falar alto, os vizinhos estavam a querer dormir mas era só porque não se sentiam á vontade como nós.
Só faltou a hospedeira sentar-se connosco e jogar “ao apanha”, mas também foi só porque não quis.
Vem a propósito referir aqui que o organizador da viagem, assegurou o alojamento, segundo ele, nuns “flats” em edifício cujo nome se apropriava muito bem ás terras de santa cruz, há dois ou três dias que não conseguia contactar a sua amiga que era responsável pelos apartamentos.
Mas como para ele, tudo se resolve, vamos embora que depois tudo bate certo.
Pois foi, desta vez a coisa deu buraco.
Desembarcados no aeroporto, o nosso sócio não poupou o telemóvel, já um aparelho local como convém a quem habitualmente frequenta aquelas paragens, mas de resposta nada!
Quando já toda a gente tinha abandonado o local, resolve ele que o melhor era ir directo ao local dos apartamentos, desculpem, “flats”.
Chamados os táxis, todos os disponíveis, face ao número de passageiros e de malas, com pouco dinheiro “real” para pagar a corrida, foi engraçadíssimo ver os esforços dos taxistas a quererem enfiar algumas das malas, daquelas que gostamos de nos fazer acompanhar, tipo baús, num espaço reduzido pelas botijas do gás de combustível utilizado.
Resultou desta corrida, uns encavalitados no colo dos outros, com mais um malote de toilete entre os joelhos, cara alegre, pois tudo parecia, ainda, uma brincadeira.
Mesmo engraçado. Só que eu nesta altura já começada a desconfiar se a coisa ía ser engraçada até ao fim. Parecia que estava a adivinhar.
Chegados ao local designado por “Jangada do Porto”, descarregados os táxis, ficou todo o logradouro do edifício completamente cheio de gente e bagagem. Parecia que tinha chegado o circo á cidade.
O melhor mesmo foi a possibilidade de esticar as pernas, respirar aquele ar quente e húmido que nos deixa com o corpo todo suado e pegajoso e apreciar o ar espantado dos seguranças do edifício que julgavam que aquilo era um assalto.
O recepcionista, não conhecia a nossa amiga e de apartamentos, nada.
O telefone da dita, nada.
E nesta altura, táxis, já nada!
Após mais de meia hora, lá se conseguiu contactar um outro amigo que ao ser confrontado com o problema nos assegurou um hotel, modesto é certo, mas que iria evitar dormir na praia logo naquele primeiro encontro com o admirável país.
Aqui, o problema começava a ser mais delicado pois os parcos reais que existiam á chegada já descansavam nos bolsos dos primeiros transportadores.
O recepcionista, olhando para os irmãos portugueses, deve ter tido pena dos ingénuos e chamou pra nós mais uma caravana de táxis. Para não agravar as coisas á chegada, procurámos ainda mais apertar-nos para poupar mais uma viatura.
Neste percurso, já chegavam as malas a outros recantos do nosso corpo que não apenas os joelhos. Houve mesmo um dos veraneantes que ficou com uma dor nas costas durante todo o tempo que por lá esteve.
Chegados ao hotel, quer dizer, pensão melhorada, fomos salvos por um outro amigo brasileiro que ainda hoje estou para saber porque razão suava mais que nós sendo ele natural daquelas paragens. Pagou os táxis, cujos motoristas se riam muito, mas nunca souberam o quanto estiveram perto de chorar por não haver dinheiro para lhes pagar.
Descarregamos as malas, sacos e demais bagagem, e após um “chek in” atribulado, onde o recepcionista tantos números queria que dei o da segurança social, dizendo que era do passaporte internacional e para ele foi suficiente. Queria números, dei-lhe números.
Subimos aos quartos e espanto nosso, deparamos com umas agradáveis camaratas, mesmo tipo tropa, onde num amplo espaço se perfilavam camas em número interminável até á janela ao fundo, junto a um ruidoso aparelho de ar condicionado que se esforçava para refrescar um pouco aquele ambiente quente e húmido.
Por mim, fiquei logo no primeiro e fui direito ao duche para me refrescar do suor e já do cansaço que começava a causar estragos, após 7 horas de voo, e de duas corridas de táxi, apertadíssimos.
Fresquinho do duche, descemos para a recepção, onde o nosso amigo brasileiro nos esperava para nos entregar as chaves de um carro, sim digo bem 1 carro, um jipinho dos pequeninos mas com AC, os respectivos vidros escuros como é hábito por ali e ainda o resto dos seus reais.
Chamamos mais uns táxis e agora sim, sem malas, lá fomos em demanda de um restaurante para comer, adivinhe-se o quê. Uma picanha, exactamente. Uma picanha. A nossa primeira picanha.
Comemos a carne dura e meio fria com muita cerveja á mistura e lá fomos andando para o hotel.
Leu bem, andando. Como não era muito longe, combinamos que se fariam transportes sucessivos com a viatura ao nosso dispor e evitavam-se os táxis.
Primeiro as crianças, depois as mulheres e depois os homens.
Obviamente que estes últimos chegaram ao hotel a pé, cansados mas felizes por terem conseguido descobrir o caminho. Deu para entender o que sentiu Vasco da Gama há 500 anos.
Prontinhos para ir descansar, eis que chega um telefonema da prima do namorado da amiga do nosso sócio e que tinha ficado encarregue dos tais “flats”. Aqui comecei a desconfiar do que se iria passar a seguir, pois nem o meu amigo falava baixo, nem a conversa era longe de mim.
Tal como receava, estava já tudo tratado e “sem dúvida” era preferível regressar á Jangada no Porto, pois evitaríamos com isso desfazer e refazer malas no dia seguinte.
Sem dúvida para alguns, não para mim, cansado, e já a pensar porque tantos portugueses quando regressam de umas férias no Brasil chegam pretos e escanzelados.
Pois bem, vamos lá então convencer o recepcionista que afinal já não ficamos aqui.
-“Tudo certo sor, o doutor paga e vai embora, doutor, mas tem de pagar, né?”
Qual quê, vá-se lá explicar que tinha de pelo menos fazer um desconto porque nem as camas chegamos a fazer. Sim, porque embora antes não o dissesse, as camas estavam por fazer com os lençóis em cima das respectivas. Ao menos assim tínhamos a certeza de que era roupa lavada.
-“Tudo ceto doutou, mas tem de pagar, né…”
-Óh homem pague-se lá e desampare-me a loja que eu quero é ir descansar que estou morto.
Subir aos “quartos”, arrumar as malas que já estavam abertas, não esquecer as coisas do banho que tinha utilizado e escada abaixo, direito á recepção.
Ao menos chame-nos um táxi, homem de Deus.; - “já tá doutou”…
Afinal, nesta altura a experiência era já grande no que concerne ao carregamento e descarregamento da bagagem. Pensei até para comigo que os empregados dos aeroportos que lidavam com as bagagens não tinham uma vida nada fácil e compreendia melhor porque razão eles em vez de manusearem cuidadosamente as nossas malas, as atiravam e as deixavam cair com estrondo no chão sem qualquer espécie de cuidado…
Nova cena de explicar aos taxistas que não podiam empurrar assim a mala maior e que era melhor separar o trigo do joio, isto é, as malas vão num só táxi e as pessoas vão nos noutros. Claro que por uma questão de cautela no banco da frente do táxi das malas vai um homem para evitar que ele se “perca”. Porque não me lembrei disto mais cedo, aí há uma ou duas viagens de táxi atrás? Tudo tinha sido mais fácil e com menos dores nas costas. Pronto mas tudo indicava que iria ser a nossa última “passeata” nocturna.
Eu, nesta altura, já começava a identificar perfeitamente as zonas da cidade. Aliás, penso mesmo que daqui a muitos anos quando regressar lá, vou saber perfeitamente o caminho para o Porto Jangada.
Novamente no átrio do edifício, o nosso amigo entrou triunfante na recepção, onde o recepcionista, mal o viu, fez um cumprimento como se tivessem andado os dois na escola primária.
“-Patrão, tão novamente por cá emh? Cê gostou né? Pois, isto aqui é bom. Olhe a doutoua telefonou pa mim e tá tudinho solvido tá?”
-É pá eu não lhe disse que tínhamos cá os “flats”? eu sabia, aqui o portuga nunca se engana. Quando eu digo uma coisa cê sabe né?
Aqui já o nosso amigo falava meio brasileiro, meio português, mas também já ninguém dava por nada. Queríamos era ir dormir.
Recebidas as chaves lá subimos aos respectivos pisos, donde aliás se vislumbrava uma vista magnifica áquela hora da manha, já madrugada dentro. A calma da baía de Forteleza aos nossos pés, as luzes coloridas, enfim, o paraíso. Nem barulho se ouvia para além do murmurar das águas quentes na praia próxima. A lua, lá no alto punha um ponto final naquela boa sensação de nostalgia entre o cansaço que sentíamos e que agora nos fazia pensar que afinal tinha valido a pena tanta tropelia.
Mal sabia eu…
Ok, vamos lá desfazer as malas e arrumar as coisas. Nesta altura, comecei a observar que o “flat” não estava tão limpo como era minimamente de esperar.
Após esta desconfiança, passamos de imediato a uma operação mais pormenorizada de inspecção das coisas. Porca miséria. Mas que sorte. Encontramos o que não devíamos e então no sofá da sala que ia ser ocupado como cama durante a noite, era só impensável alguém lá se deitar, no estado em que se encontrava.
Mas que mal fiz eu a Deus para me acontecer mais esta? Eu, que até nem sou crente, já clamava pelo divino.
Reunida toda a tribo no hall de um dos apartamentos e depois de confirmada a situação, houve que tomar decisões drásticas.
Houve quem votasse, vamos para o aeroporto e apanhamos o primeiro avião para casa, porque isto não augura nada de bom. Coro de protestos de imediato.
Então viemos até aqui e agora desistíamos? Nem pensar. Ainda temos 8 dias para encontrar um local aceitável para dormir, dizia outro. Claro, tal e qual, fiz 6.000Km para passar oito dias á procura de alojamento. Perfeito. Férias porreiras. Se o resto for igual, vai ser bom.
Mas entretanto era necessário resolver o problema.
Primeira sugestão; Afinal temos os quartos pagos no hotel anterior, que ninguém já sabia o nome. Diz outro; “oh pá, eles não darão um prémio aos turistas com mais viagens de táxi em tão pouco tempo? Se fosse sempre a mesma companhia já tínhamos desconto”.
Nisto, convenci o meu amigo a fazer uma deslocação ao hotel que ele usualmente utiliza para tentar resolver o problema, pelo menos naquela noite e depois víamos com calma a melhor solução, após uma noite descansada e bem dormidos as coisas pareceriam mais fáceis.
As esperanças eram poucas, pois a solução dos “flats” resultou do facto do referido hotel, assim como outros da zona, estarem lotados quando se tratou da viagem. Mas como a esperança é a última a morrer, lá fomos.
Chegados ao hotel, deslocados no jipinho, o meu amigo foi logo reconhecido pelo empregado de serviço; “Então doutou, por cá? E desta vem sozinho?” aqui o meu amigo ficou um pouco atrapalhado, não por ele, mas porque aquela conversa podia induzir a mal-entendidos.
-Oh José, estamos com um probleminha. Precisamos de quarto. Tens?
Ficamos com a respiração suspensa da resposta do recepcionista.
Aqui convém acrescentar que estávamos mesmo num hotel. Tal como em qualquer parte do mundo civilizado, na marginal frente á praia de Fortaleza, aqui sim. Seria um sonho. Mas depois de tudo o que nos tinha acontecido, ninguém acreditava em milagre.
E nisto porque chegava um grupo que fazia o seu chek in, tivemos que aguardar.
-José, cê na esqueça da gente, tá? Dizia o meu amigo, no seu brasileiro rebuscado, mas que servia para o empregado não se esquecer. Entretanto um de nós, como não quer a coisa, dizia baixo, mas de forma que o rapaz ouvisse, “oh pá, se ele arranjar quartos para nós temos de lhe dar uma boa gorjeta.”
Despachados os turistas retardatários. Chegou a nossa vez. O moço teclava no computador e todos nós, á uma, nos debruçamos sobre o balcão na ânsia de espreitar o que se passava.
-Chega o veredicto; -“doutou, tudo bem, vou arranjar quartos pa vocês. E para todo o tempo!”
Impossível, os nossos ouvidos não estavam a ouvir bem. Era do cansaço. Pedimos para ele repetir e ele repetiu.
Apeteceu-me saltar o balcão e abraçar o homem. Contive-me, afinal merecíamos aquela sorte depois de tudo o que passamos.
Pessoal, vamos buscar o resto da malta. Eles nem vão acreditar. Telefonamos para prepararem as coisas e lá seguiram no jipinho para trazer pessoas e bagagens, recorrendo como é óbvio a mais uns tantos táxis.
Porém eu já não sai dali. É o sais! E vamos que o fulano dava os quartos a outros? Não. Não ia correr esse risco. E depois sempre ficava mais um lugar para a viagem. Eu até tinha as minhas malas ainda fechadas.
Chegou a bagagem, e as filhas, já meio a dormir aquela hora da madrugada estavam estupefactas com o hotel, porque já estavam a ficar habituadas aos “outros”. Feito o chek in, subimos ao quarto e dormimos que nem uns justos, mesmo com o AC a fazer um barulho não de acordo com a classe do hotel.
Nem o ouvi e reclamações nem pensar. Não há dúvida, as reclamações são sempre relativas. Se fossemos direito àquele hotel e déssemos com a situação, fazíamos um chinfrim que só deus sabe. Assim, quem se atreve? Quem? Quem quiser que se mude. No outro é melhor…
Após 4 viagens de táxi, percursos a pé e outros de jipe, num total de 3 voltas á cidade, merecemos o sono daquela noite.
Restava esperar que o resto das férias fosse melhor…
E quase que foi, mas o resto será contado outro dia que hoje, estou quase tão cansado como naquele dia, naquela noite…
Abençoado Brasil…